- Entre.
- Eu... bem, eu... que fique claro, eu...
- Entre.
- Jorge, escuta - em seus lábios o amargo, há 2 dias não comia - Eu pensei, pensei muito, mas... eu tinha razão, não quero me explicar, eu te machuquei, bem... te machuquei com a tua culpa, você sabe, foi... foi uma vez, então... eu não me arrependo, mas entendi, será pior pra você a distância, não é?! Você me ama, me ama, sim?
- Olha, o lado bom ou ruim de estar morando com a mulher, é foder ela; se você ama, você ama e fode com a sua mulher porque é a porra da mulher que você ama; depois, se não ama a sua mulher, você bebe, fuma, fode, assiste e escreve o maldito livro que nunca vai vender. Com a puta ninguém mora. Fode, fere, dá o da comida e volta pra casa pra beber... engraçado,
- Jorge...
- você só se lembra da puta de novo, quando sente fome, quando tá com vontade de comer um hambúrguer nojento...
- Jorge... para...
- Então, tem a mulher que ama, que fode com um demente, que se sente insegura... abre as pernas para uma carteira que pagaria um vinho razoável, depois, fode com o que ama, e então: buuuuuh, deixa o cara com pus no mijo, sangrando... Isso é engraçado, eu estou sorrindo. Não, Luna, você não estava errada. Entre as pernas, teu próprio estupro. Tô mijando sem dor.
- Pega, o CD é teu.
Abotoou a bolsa, tropeçou no passo e calou embaixo, frente a estátua de Gonçalves Dias.
domingo, 30 de dezembro de 2012
A urgência dos 20 anos
Um momento, por favor, tenho 20 anos! 2012 tá no finzinho e cá estou eu escrevendo memórias para a velhice.
Digamos que completar 20 anos me fez ter uma sensação meio rasteira da vida, sabe?! Deixei o salto alto um pouco de lado, esperando no canto, sempre embaixo das sapatilhas, foi tanta descoberta pra mim que, me sentir mulher estava bem além de empinar a bunda num salto, entende?! O sapato alto completaria o delíneo de minhas pernas, mas quando por ele meu instinto pedisse.
Minha presença mais marcante, minha voz grave encontrou o meio tom, as curvas sincronizavam com meu olhar feminino, a boca e os cílios completavam a silhueta. Surpresas e surpresas, desapego e tudo mais.
Aos 19 ficava preocupada, tudo bem que seria uma adultinha, mas meus ursos acampariam na minha cama, minha coleção de fotos ficaria espalhada, teria caderno de desenho e lápis de cor, usaria rabo de cavalo, camisas de estampinha... Foi um aborrecimento besta a programação dos 20 anos, pensava tanto no que faria, que esqueci da habilitação. A burrice é tensa, aprendi.
Ah, de qualquer forma, tomaria meu sorvete, foi então que relaxei.
Amadurecer tem sido natural, tenho deitado na rede e lido bobagens sem nenhuma culpa, eu também trabalho, acordo cedo, faço acordos, sentenças, tudo direitinho, tipo gente grande.
Acompanho séries, mas também estudo francês, ouço músicas, como também me dedico ao Direito, cozinho, mas saio toda solta, dançante e feliz a procura de algum lugar aconchegante pra comer minha salada de frutas com sorvete, ou pizza com suco - êeeehh.
Uma época feliz, escrevo o que gosto, com carinho e para mim. Vivo mais intimista que de costume, saio, danço, pulo, cultuo... Leve, a meu modo. Carregando sobre os ombros o peso de quem canta, de quem sabe cantar e entoa pra si, porque minha alma pede.
Ainda custa pra eu completar 21 anos, mas aos poucos eu vou me preparando.
Amo com pressa, com a ânsia pronta para sufocar, amo demais tudo que amo... ainda não descobri se é imaturidade ou minha intensidade; por enquanto nenhum mal.
Vou continuar aprendendo, apaixonada, estudada, encantada. Prossigo cantando, bordando, escrevendo, compondo, costurando, fotografando, plantando...
20 anos é excitante, sensual - é tara; a pele quer comer o mundo.
Digamos que completar 20 anos me fez ter uma sensação meio rasteira da vida, sabe?! Deixei o salto alto um pouco de lado, esperando no canto, sempre embaixo das sapatilhas, foi tanta descoberta pra mim que, me sentir mulher estava bem além de empinar a bunda num salto, entende?! O sapato alto completaria o delíneo de minhas pernas, mas quando por ele meu instinto pedisse.
Minha presença mais marcante, minha voz grave encontrou o meio tom, as curvas sincronizavam com meu olhar feminino, a boca e os cílios completavam a silhueta. Surpresas e surpresas, desapego e tudo mais.
Aos 19 ficava preocupada, tudo bem que seria uma adultinha, mas meus ursos acampariam na minha cama, minha coleção de fotos ficaria espalhada, teria caderno de desenho e lápis de cor, usaria rabo de cavalo, camisas de estampinha... Foi um aborrecimento besta a programação dos 20 anos, pensava tanto no que faria, que esqueci da habilitação. A burrice é tensa, aprendi.
Ah, de qualquer forma, tomaria meu sorvete, foi então que relaxei.
Amadurecer tem sido natural, tenho deitado na rede e lido bobagens sem nenhuma culpa, eu também trabalho, acordo cedo, faço acordos, sentenças, tudo direitinho, tipo gente grande.
Acompanho séries, mas também estudo francês, ouço músicas, como também me dedico ao Direito, cozinho, mas saio toda solta, dançante e feliz a procura de algum lugar aconchegante pra comer minha salada de frutas com sorvete, ou pizza com suco - êeeehh.
Uma época feliz, escrevo o que gosto, com carinho e para mim. Vivo mais intimista que de costume, saio, danço, pulo, cultuo... Leve, a meu modo. Carregando sobre os ombros o peso de quem canta, de quem sabe cantar e entoa pra si, porque minha alma pede.
Ainda custa pra eu completar 21 anos, mas aos poucos eu vou me preparando.
Amo com pressa, com a ânsia pronta para sufocar, amo demais tudo que amo... ainda não descobri se é imaturidade ou minha intensidade; por enquanto nenhum mal.
Vou continuar aprendendo, apaixonada, estudada, encantada. Prossigo cantando, bordando, escrevendo, compondo, costurando, fotografando, plantando...
20 anos é excitante, sensual - é tara; a pele quer comer o mundo.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Lua
Queria fotografar a lua
estando montada nos segredos dela,
ou quem sabe ela ser,
escura e nua sobre ela.
Tô com vontade
de ser
a
lua.
estando montada nos segredos dela,
ou quem sabe ela ser,
escura e nua sobre ela.
Tô com vontade
de ser
a
lua.
domingo, 23 de dezembro de 2012
Visagem
Quando desassossega ou
o assunto o incomoda,
ele pega e abre a boca,
boceja pra dizer que não se importa.
o assunto o incomoda,
ele pega e abre a boca,
boceja pra dizer que não se importa.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
A cena do cinismo
Fiquei sentada relembrando o cinismo da cena: minha entrada,
um susto, olhos avulsos e mãos que não conseguiam fechar as janelas.
Quando assusto geralmente sorrio, mas quando surpreendo,
silencio; e em silêncio me direciono até a geladeira, tomo água, deixo a bolsa
e os livros em cima da mesa, troco de sapatos, pego a carteira, as chaves e
saio. Compro os presentes de natal, sento na praça e só consigo pensar na série
de gestos - mal resolvidos, mas não confusos.
Eu me atrevo a dizer que aquela foi a deixa para eu terminar
de fazer as malas, mas o corpo quis deitar.
Não me deixe desconfiar, eu gosto de escrever.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Purple Rain na varanda
Querido, a tua mão escolheu a minha. Minha paz escolheu teu peito. Meus ouvidos, tua guitarra. Minha pele, a tua poesia. E não há nada em mim que não pertença a tua fantasia.
Quando, na varanda, esquecemos o passado, fomos abençoados com a púrpura dos céus, a chuva nos batizou e só soubemos sorrir. Lembra que te abandonei? Lembra o que fez? A guitarra contou nosso segredo para o teu público.
Só queria ser uma espécie de amigo, você chorava no palco. Eu? Só soube fugir para além de tuas mãos, para a segurança da solidão. Eu? eu era Prince, eu era som, eu era o teu choro.
.
E todos os dias dedicava a tua paciência a minha infância, cuidava de mim como um ourives cuida da safira ao fogo. Provou da minha teimosia, foi anjo que aceitou todas as minhas enfermidades, chorava comigo nas crises, amansava as dores.
Gritou comigo: resolva seu egoísmo, você é muito pequena pra isso! Eu quis te matar sabia, amor?
Você entendia que o amor quando trata, trata para deixar livre, deixar livre quem é selvagem. Você me prendeu com a ousadia de quem sabe voar.
Somos a excelência de Guitar Battle brindando a Purple Rain.
Quando, na varanda, esquecemos o passado, fomos abençoados com a púrpura dos céus, a chuva nos batizou e só soubemos sorrir. Lembra que te abandonei? Lembra o que fez? A guitarra contou nosso segredo para o teu público.
Só queria ser uma espécie de amigo, você chorava no palco. Eu? Só soube fugir para além de tuas mãos, para a segurança da solidão. Eu? eu era Prince, eu era som, eu era o teu choro.
.
E todos os dias dedicava a tua paciência a minha infância, cuidava de mim como um ourives cuida da safira ao fogo. Provou da minha teimosia, foi anjo que aceitou todas as minhas enfermidades, chorava comigo nas crises, amansava as dores.
Gritou comigo: resolva seu egoísmo, você é muito pequena pra isso! Eu quis te matar sabia, amor?
Você entendia que o amor quando trata, trata para deixar livre, deixar livre quem é selvagem. Você me prendeu com a ousadia de quem sabe voar.
Somos a excelência de Guitar Battle brindando a Purple Rain.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Lilian
Quando a noite chegou, me senti liberta. Com o ritual de amor próprio que há pouco havia aprendido, arranquei o velho vestido preto decotado do armário, a lingerie mais cara me tocava, de meias três quarto e batom vermelho, me admirei no espelho, era uma perfeita viúva desregrada. Ele, deitado no sofá da sala, assistia uma coisa qualquer, o que lhe servisse melhor que eu.
Enquanto encarava minha decisão frente ao espelho, chorava, doía, mas o choro é amansador. A hora perfeita era aquela, peguei meu celular, minha bolsa, chequei a carteira, revirei meus documentos; me sentei de novo na cama, chorei. Levantei, ainda com soluços discretos, me perfumei. Fui a sala, beijei Arthur na testa, disse adeus. Ele, atordoado, me encarou enraivecido, num só golpe se levantou do sofá e me tirou de frente da TV.
Enquanto encarava minha decisão frente ao espelho, chorava, doía, mas o choro é amansador. A hora perfeita era aquela, peguei meu celular, minha bolsa, chequei a carteira, revirei meus documentos; me sentei de novo na cama, chorei. Levantei, ainda com soluços discretos, me perfumei. Fui a sala, beijei Arthur na testa, disse adeus. Ele, atordoado, me encarou enraivecido, num só golpe se levantou do sofá e me tirou de frente da TV.
A paixão é assustadora
Às vezes fico me beliscando, tapeando pra ver se ainda estou aqui, se ainda existo.
Que coisa louca esse negócio de a outra pessoa ocupar todo o espaço que existe em você, pior ainda é que vai além, vai além de seu próprio corpo; ele fica lá, na cadeira da varanda, no livro de Sociologia, na mesa, no birô, na torneira da cozinha. E, ainda, nos trejeitos alheios, nos rostos estranhos na rua, nas atendentes infelizes do Paraíba. Você se assusta de sobressalto porque, essa loucura de espaços ocupados é o que te deixa feliz, é o que te dá segurança, é a forma mais delicada de ser palhaça, de ser boba.
Como pode?! Só estando louca. Ah, tem dias que dá vontade até de apertar a campainha só pra sentir aquele friozinho na barriga, ouvir barulho, é o barulhinho sinfônico da chegada dele, é o sinal: agora ele ocupa só o meu abraço.
Que coisa louca esse negócio de a outra pessoa ocupar todo o espaço que existe em você, pior ainda é que vai além, vai além de seu próprio corpo; ele fica lá, na cadeira da varanda, no livro de Sociologia, na mesa, no birô, na torneira da cozinha. E, ainda, nos trejeitos alheios, nos rostos estranhos na rua, nas atendentes infelizes do Paraíba. Você se assusta de sobressalto porque, essa loucura de espaços ocupados é o que te deixa feliz, é o que te dá segurança, é a forma mais delicada de ser palhaça, de ser boba.
Como pode?! Só estando louca. Ah, tem dias que dá vontade até de apertar a campainha só pra sentir aquele friozinho na barriga, ouvir barulho, é o barulhinho sinfônico da chegada dele, é o sinal: agora ele ocupa só o meu abraço.
Um tanto de Sara
Você sabe aqueles tempos em que a fantasia é mais lúcida que
qualquer outra coisa em você? Que tu andas por aí como se dançasse ciranda? Que
olha para dentro dos Correios com dó dos atendentes sentenciados a não sorrir?
Sabe essas coisas? Pois é... Estou na fase mágica da maturidade.
Percebe que minha maturidade está a um passo da infância?
Ainda semana passada planejei me comportar como adulta,
vestir roupas um tantinho mais longas, ir pra academia retardar a menopausa,
economizar dinheiro sujo pra comprar um carrinho, um casebre, planejar meu escritório.
Imaginei o tempo em que cogitaria a idéia de fazer franjinha
e chorar por não ter mais vinte anos. Me vi longe, lá no futuro... Numa época
em que hoje é a fase feliz.
Lá onde eu me via, não enxerga um tempo largo. Não me vi
cantando na sala, nem tinha violino ou violão detrás da porta. Nem as graças do
amor devoto.
Minhas plantinhas não estavam no peitoril das janelas...
Eu imaginei tudo isso meio embaralhado. No fim do dia ao
relembrar as frescuras, sorri. Devaneios insensatos.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
O Vendedor de livros
Januy vendia o que não podia comprar
comprava o que não podia fazer
escrevia o que podia vender.
comprava o que não podia fazer
escrevia o que podia vender.
sábado, 17 de novembro de 2012
Silêncio
Estive ontem na casa de dona Doura, senhora distinta, dada
por muitos como louca – o que não me causa incômodo. De alguma forma senti que
deveria conversar com ela para me entender um pouco mais; uma velha, pobre,
louca, suja e reclusa numa casa de taipa no meio da caatinga, seria meu melhor
analista.
Deixa eu dizer como tudo aconteceu; enquanto passava férias
na minha cidadezinha, visitei vários povoados com o meu pai, em busca de ração
para o gado, desfazendo as ordens de Deus e tentando não deixar nossas crias
morrerem. Deus olha a morte e sorri.
Ouvia rumores da morte de um velho vaqueiro, que fora
assassinado por um vizinho que sabia que no chão, embaixo do tamborete da mesa
da cozinha, encostado a parede ao lado do fogão, enterrada estava uma pequena
fortuna, da venda do gado de leite; nada mais que cinco mil torrões.
Sempre que alguém narrava a história triste da viúva
sofredora que gritava vendo seu marido morto no beiço da porta com as tripas espalhadas
pelo terreiro, me causava arrepio, um arrepio de desconfiança, de quem sabe quando
uma história tem fim.
Por acaso ou destino, ou só a velha me chamando, ontem de manhã
fui parar na palhoça da Doura, melhor dizendo, debaixo do cajueiro, na porta da
casa dela, sentada no banco de madeira contando as lagartas que se arrastavam
pelo terreiro da velha – lagarta de fogo.
Doura me apareceu na porta, disse que precisava me falar,
entrei na sua casa como desafiante de boteco, mal encarada. Ela me disse:
- Mistério é mistério, o diabo deve saber.
Perguntei do que falava, e ela... me ofereceu tripas de bode
pra comer.
A realeza de Ester
Sempre ficava confusa pela manhã, era como se algo fosse
perdido durante a noite, talvez seja apenas a ressaca de fantasias que a
realidade trazia, mas Ester demorava a se recompor. Durante o banho escrevia
vários poemas, cantarolava novas canções, pensava até em arranjo pra o violino –
o banho se tornava uma extensão dos primeiros sonhos.
Enquanto preparava seu
café, se imaginava morando no campo, conseguia até sentir o cheiro da relva
matinal, fazia de conta que a margarina era manteiga fresca e que o café tinha
sido colhido no quintal. Esquecida de sua vida campestre, esticava seu notebook
na mesa, ao lado, uma torre de livros e começava a estudar; ficava se
imaginando uma mente importante, com grandes responsabilidades quanto ao estudo
social do crime.
A terra de Ester era a mesma terra da infância, com o mesmo
cheiro de água molhada, com as mesmas mãos criando castelos, com a mesma mente
fabulando com pedras, arranjando um destino perdido para alguma flor de feijão
ou pé de goiaba. Ester cresceu, deveria ser mais astuta, pelo menos mais
racional, Deus lhe deu uma mente brilhante, poderia ser destaque intelectual,
mas qual?! Ester é poeta, assim sempre será.
Em qualquer cidade que chegar será saudada pelos súditos que se curvarão na beira da estrada, acenando com uma flor na mão, as crianças nos ombros dos pais, sorrindo e gritando por seu nome.
Em qualquer cidade que chegar será saudada pelos súditos que se curvarão na beira da estrada, acenando com uma flor na mão, as crianças nos ombros dos pais, sorrindo e gritando por seu nome.
Todos
sabem, todos notam a realeza de Ester.
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
O que não puder esquecer
Agora que sou velha, não preciso de tanta bagagem, uma mochila rasgada com o caderno de lembranças e o fardo de memória, já me basta.
Ontem, enquanto dormia, escolhi o que deveria guardar:
Um pedaço de seus cílios longos, para o caso de eu precisar chorar;
Suas rugas douradas, o presente precisa sorrir;
Uma gota de seu perfume, vai que eu queira me inspirar;
Uma fotografia antiga, pra não me lembrar de agora;
E depois, só o que não pudesse esquecer.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
A praticidade como inverso de uma vida prática.
Gostaria de tratar meus textos com a mesma leveza que tiro o relógio do pulso para me esquivar das horas, seria estúpida. A hipocrisia não é leve, me disponho ao peso quando maltrato o tempo. Quando meu pulso fica livre, sou sutil e só.
Se por um instante a sanidade fosse minha aliada, entenderia como alguém pode ser feliz ao se propor uma vida prática. Sem o ritual e as surpresas, onde fica a beleza? resta loucura. Mas os loucos são inventivos, há praticidade? Sim, mas também ha liberdade. Ser livre é ser louco? Ser livre é uma questão de prática. Prática de prazeres, os prazeres avulsos e os com hora marcada.
Se por um instante a sanidade fosse minha aliada, entenderia como alguém pode ser feliz ao se propor uma vida prática. Sem o ritual e as surpresas, onde fica a beleza? resta loucura. Mas os loucos são inventivos, há praticidade? Sim, mas também ha liberdade. Ser livre é ser louco? Ser livre é uma questão de prática. Prática de prazeres, os prazeres avulsos e os com hora marcada.
domingo, 28 de outubro de 2012
Da pasta: Sara
Língua afiada é coisa de idiota; língua bonita é língua na
boca, língua inteligente é língua calada.
' Da pasta: besteira
Escrita e solidão, puta e solidão, paixão e escravidão,
poeta e nada; nada é pior que solidão, melhor seria se fosse escrava.
Não sei nada sobre títulos
Palavras contadas, minguadas, fio por fio.
Palavras poucas, palavras vazias,
Nenhuma palavra.
Acabou.
' Horas arrastadas
Bar, isso, numa mesa de bar. Era tarde com horas lentas
daqueles dias arrastados, estava lá, sentado, charmoso, mal educado, velho,
porco. Entre bebidas, cafés, cigarros e livros, solitário. Você quer saber? Foi
o que de mais bonito vi em minha vida.
Se me atrevi a sentar-me à mesa? Sim.
Fui convidada. Se estive nervosa?! Por favor, fale mais alto, ou melhore o tom
da fala, não consigo te entender. Ah, sim, sim. Não estava nervosa, normalmente
fico em paz quando encontro sombra na escuridão, coisa de poeta, de vagabundo,
coisa minha, de gente cega. Pois não, prosseguirei. Fui admirada por ele.
A
admiração – confesso -, não me deixa envaidecida, seu poder é outro, fico
amedrontada, porque que ali, como posso explicar?! Claro, se estabelece uma
espécie de vínculo entre o admirador e o admirado; sempre tenho a impressão de
que preciso corresponder as expectativas, o que não consigo. Viro estátua, não
faço mais nada. Mas olhe, naquele dia nada disso aconteceu.
Fui sabatinada, foi
bonito, estava livre, era um coração como o meu. Ele chorou, isso me emociona,
ele chorou quando falei de algum Kovisky, penso que
também tenha chorado. Depois ele bebeu, me elogiou e disse que de política não
entendia nada. Eu sorri, abandonei o velho negro no canto, fui embora
desimportante.
Um dia lento, desses que as horas passam arrastadas.
' Zenete
Zenete vinha do interior, de um interior qualquer perdido no
tempo e no mapa. Com uma beleza exagerada de cabelos grandes, boca grande,
olhos grandes, cara marcada. Zenete tinha esperança, esperava fazer a vida como
mulher importante, mulher estudada, mulher elegante, mulher admirada. Zenete
era boba, de uma bobice invejada, acreditava nas palavras, não sabia que
palavras ditas são palavras contadas. Mas Zenete era jovem, jovem inteligente,
desistiu de ser mulher importante, foi ser mulher mudada. Mudou o interior que
tinha, encontrou o que havia perdido, fez de sua vida a marcação do tempo.
Pintou os olhos grandes, soltou seus cabelos, pensou coisas importantes, andava
em más companhias, admiração não tinha, era invejada. Zenete sofria, agora sofria
adulta, sozinha e calada.
' Desacelerada
Desacelerada. Estou assim, sem pressa pra nada, sem gosto
nenhum
Insossa, em paz, em pó, atrás.
Atrás de arranque, de ser arrancada, de uma batida, de ser
montada.
Montada. Estou assim, enfeitada por palavras, palavras em
desordem,
Sem preferências, sem paixão, engoda.
Gorda. Estou assim, gordura e baba; sem beleza, hipócrita,
um nada.
Nada, nada é assim, finito, burro, imundo.
domingo, 9 de setembro de 2012
' O Último entendimento
Estive com ele, mal me lembro; era noite e eu pouco entendia.
Importante? Não, eu estava lá, eu estive com ele. Meu enredo é simples, digamos
que o meu argumento seja o pouco entendimento. De quê? Qualquer coisa, qualquer
situação ou sentimento. O simples entender, ou... O nem querer saber – que seria
melhor (ao menos mais honesto). Enfim, repito: eu estive com ele.
Numa noite pouco pura, meio clara, meio escura, decidi que
sairia e que por menos e mais modesta, abandonaria meu espírito imundo,
sofrido. Me poria em sacrifício, fosse o que fosse. Em detalhes me planejei para
este dia: depois de um banho rápido,
desprovido de pensamentos, me vestiria. Roupas novas e talvez bonitas – o menos
provável seria a beleza – calçaria chinelos leves, usaria cabelos soltos. Canibal,
comeria minhas unhas, estaria nervosa, de algum modo eu o encontraria. Pouco
perfume e olhos pesados, seguiria até o térreo, abriria o portão, desceria rua
abaixo, me depararia com uma praça, sentaria no último banco do lado esquerdo,
de frente para o cemitério. Ali esperaria, estaria com ele, sei que me encontraria.
Assim fiz, senhor velho. Com licença, depois de uma pequena pausa continuarei
minha história. Antes me conte, há em tuas lembranças um olhar mais triste que
o meu?
Pronto. Fiz exatamente como havia planejado, sozinha no
banco fiquei sentada por algum tempo, 3 horas para ser justa. Era ele, o
escritor desconhecido (fisicamente, claro), meu pertence mais íntimo. Durante
17 anos esperei por seu afago, ele foi ao meu encontro. Ah, Senhor Velho, tenho
certeza de que nada além de nós dois existiu no mundo naquele momento, naquele
singelo tempo, foi ali, bem ali o princípio do entendimento: é só para o amor
que o coração existe.
No início eu disse que pouco me lembrava, era mentira. Penso
todos os dias no tempo em que fui querida, é... Eu fui.
Você começa a entender Senhor, porque não posso me alegrar? Seus
olhos caídos eram uma espécie de liberdade onde eu podia dançar sozinha num
espetáculo em que ele me aplaudia, era minha platéia, quando eu cantava, era
uma poeta desesperançosa, ele ria, me achava sutil. Vítima do arrebol sedutor:
a luz de seus cabelos no brilho da pele. Havia mesmo tanta beleza assim? Ora,
este é o segundo entendimento: nossos sentidos foram criados para a
extravagância do outro. Havia nele a perfeição.
Hoje, olhe pra mim. Por onde anda a leveza, a poesia, Senhor
Velho? Eu me lembro de ti. E tu, do que ainda gosta em mim? É esse peso que
hoje te alegra? Ainda sou tua, querido. Me encontre, há tempo. Não peço a tua
compreensão.
Por aqui, sem um final desejado, quiçá sem muito fôlego.
Termino meu texto. Sem desdizer nada que disse no começo, o argumento seria o
de não entender, o que pra mim seria honesto. Este é o último entendimento.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
' Disciplina, pequena!
Disciplina, pequena; é disso que você precisa! Esta é minha
ladainha diária, horária, segundo após segundo. “Eu preciso de disciplina, eu
preciso de disciplina”, mas qual? Dentre tantos afazeres me disponho a fazer
todos, acordar cedo – é... (risos), tomar baninho, café da manhã, colocar meus
livros a postos e começar minha dedicada viagem aos labirintos do Direito, por
suas vias mais obscuras. Eu começo, eu leio, eu estudo, eu entendo, até aplico
e é gostoso. Mas então... olho para o lado, vejo meus livros favoritos, sinto
Cecília Meireles me chamando para entender sua crônicas, Esopo para que
compreenda a moral das fábulas, Machado de Assis para que não me desanime com a
vida, Dostoiévski, o homem que é meu outro lado. Então... Adeus disciplina! Me
rendo, vou para uma diversão diferente, vou para o pouco compromisso com a
realidade, vou para o que é meu. Me desarmo, aí depois vem a agonia: Tenho
estudo de caso para entregar daqui a pouco! Deus, Direito Civil! E agora? E
agora? Bem, ainda tenho meia hora, vamos ver, vamos ver... dá tempo, leio e
respondo. E o tempo? Deu tempo, mas e o atraso? Há tempo. Eu e o relógio não
nos damos, chego atrasada. Entrego o trabalho poucos instantes antes do término
da aula. Mas quer saber? Eu cumpri o que me propus muito antes da disciplina,
eu prometi a mim mesma: o que me fizer feliz. Aprendo o que deveria, me divirto
com o que gosto, e depois... ando lentamente pelas ruas do centro de Caxias
ouvindo Zaz e me desenrolando no francês. Se o trabalho sempre for recebido, me
contento; dever cumprido.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
' Canção de meu coração morto
Tenho sofrido durante anos, por todas as lembranças,
com o peso de minha indeterminação
e a força da desesperança.
Cá pra dentro há quem diga que eu deveria ser decidida
pela decisão de obedecer.
Por outro lado, há quem clame que a liberdade de um homem
é o carma a qual deve padecer.
Por menos tenho morrido, lamentado e murmurado
é o infortúnio do meu fado, o poder em minhas mãos
é sensível a dor do ar - e as feridas
em meus lábios
___Disto não gosto de falar
Essa minha canção tão ardilosa, simples e indelicada
vem de minh'alma mal amada e do peito tentador
são as dores de meu parto, meu triste coração morto
___Tão infame em meus versos e poeta em meus sopros.
com o peso de minha indeterminação
e a força da desesperança.
Cá pra dentro há quem diga que eu deveria ser decidida
pela decisão de obedecer.
Por outro lado, há quem clame que a liberdade de um homem
é o carma a qual deve padecer.
Por menos tenho morrido, lamentado e murmurado
é o infortúnio do meu fado, o poder em minhas mãos
é sensível a dor do ar - e as feridas
em meus lábios
___Disto não gosto de falar
Essa minha canção tão ardilosa, simples e indelicada
vem de minh'alma mal amada e do peito tentador
são as dores de meu parto, meu triste coração morto
___Tão infame em meus versos e poeta em meus sopros.
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
' Meu amor
Quando te vejo assim zangado
perco o ar, amor,
dou gargalhadas sozinha.
Penso em teu bico encabulado
e me alegro em tuas desgraças,
sinto prazer por teu escárnio, tua dor
é uma vingança íntima
você morre assim pra mim, amor.
Essa maldade é minha alma
que é tua em sombra e sol
sou em bico tua musa,
tua santa, teu flambol.
Amor...
Minhas mãos te cobrem em palmas
no meu rito desconhecido
no calor do velaneio
Um abraço e te esgano, derramo.
Me esclareço e te beijo.
Meu amor.
perco o ar, amor,
dou gargalhadas sozinha.
Penso em teu bico encabulado
e me alegro em tuas desgraças,
sinto prazer por teu escárnio, tua dor
é uma vingança íntima
você morre assim pra mim, amor.
Essa maldade é minha alma
que é tua em sombra e sol
sou em bico tua musa,
tua santa, teu flambol.
Amor...
Minhas mãos te cobrem em palmas
no meu rito desconhecido
no calor do velaneio
Um abraço e te esgano, derramo.
Me esclareço e te beijo.
Meu amor.
' Estou velha e sei
Dizer que estou velha e sei, seria bom
Mas não é, nem será.
Eu vou dar um jeito de voltar
de ficar escondida no passado
não no meu, no de alguém que
que tenha amado pouco
ou quase nada, desse amor que eu amo
e que a mim não trata.
Dizer que sou criança e sei, seria bom
mas não é, nem será
porque nem sequer há pureza,
beleza ou coisa assim.
Se eu voltar, ainda serei adulta
pequena e bruta, dessas que Chico Buarque canta
se eu voltar porque fui, serei outra
serei insossa.
Sem quase nada que seja bom
Porque mesmo escondida, hei de voltar ferida
E cuidarei de ter rancor.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
' Desabafo da madrugada
Vez ou outra aparece em meu facebook a notifiação, ou
melhor, uma lista de aniversariantes – deve acontecer o mesmo em milhões de
face’s. Porém, esse tipo de situação, é a situação que me paralisa, me estanca
me deixa tensa... Assim bem simples: eu não sei o que desejar, eu não sei se
devo desejar algo, eu não entendo em que a minha manifestação pública contribuirá
na vida do aniversariante. As pessoas normalmente não gostam de mim, então
porque gostariam que lhes parabenizasse?! Han?! Seria só o ego?! Meu ou dela?!
Mas e então? Eu me rendo; afinal de contas nem tudo é poesia. O problema não
está nelas, em absoluto. O problema sou eu, eu e meus pequenos significados e
minhas monstras conclusões, eu quase sempre acabo concluindo que “felicidades”
é o melhor que posso desejar (o melhor pra ela porque sou cristã), mas ao mesmo
tempo me sinto imunda por desejar algo em que não acredito, porque quase como
cola, eu grudo a palavra que me destrói e que fecha o ciclo de hostilidade
humana em mim, eu declaro – discretamente: felicidades infinitas. Não, eu não
posso fazer isso! Mas... Normalmente chocaria se dissesse: Você anda mal, mais
próximo da morte, sua vida me interessa e me entristece também. Olha, o que de fato posso lhe desejar
e ainda com peso no coração, seria “segundos de alegria”. O que me deixaria feliz por um instante, porque é assim que acontece assim eu desejaria. Desculpe, as vezes falo bobagem.
Esse é o tipo de post que dá ressaca na manhã seguinte, daqui a pouco eu vou olhar, talvez delete e, antes, quando ainda estiver lendo, na metade desse meu texto mal redigido, eu sentirei vergonha, vergonha de mim, porque minha vontade de apagar é mais forte que minha vergonha de pensar, eu vou dizer baixinho: - Deus, quanta hipocrisia!
Esse é o tipo de post que dá ressaca na manhã seguinte, daqui a pouco eu vou olhar, talvez delete e, antes, quando ainda estiver lendo, na metade desse meu texto mal redigido, eu sentirei vergonha, vergonha de mim, porque minha vontade de apagar é mais forte que minha vergonha de pensar, eu vou dizer baixinho: - Deus, quanta hipocrisia!
sexta-feira, 20 de julho de 2012
' Olhando pra você
É que tem dias que meio escondida, coisa de criança
Eu paro e fico mesmo assim: olhando pra você
Bem desse jeito assim: descobrindo você.
É que nesses dias eu paro e grito, escondido de nós
Que eu desejava alguém assim, bem desse jeito assim
Então eu pego e fico: olhando pra você
Não de outro jeito, só assim: me descobrindo em você
Me cubro de você
Me cubro de você
Exatamente assim, bem desse jeito assim: olhando pra você.
' Ando assim meio perdida
Eu só procuro o mar quando não posso te alcançar
O meu mar é escondido, só encontro no sofrimento
O meu mar, senhor amor, é uma solidão meio medonha
Dessas coisas que a gente sonha para tirar em dias ruins
Só pra chorar meio escondido e aliviar o coração.
Esses versos e o meu mar são pobres em sofisticação
Mas é mesmo assim que eu sinto, numa indelicada indecisão:
Se o mar é coisa minha, porque quem manda é a solidão?
Fico cá meio perdida, perturbada e ofendida
Pelo fim de meu poema sem uma boa conclusão.
O meu mar é escondido, só encontro no sofrimento
O meu mar, senhor amor, é uma solidão meio medonha
Dessas coisas que a gente sonha para tirar em dias ruins
Só pra chorar meio escondido e aliviar o coração.
Esses versos e o meu mar são pobres em sofisticação
Mas é mesmo assim que eu sinto, numa indelicada indecisão:
Se o mar é coisa minha, porque quem manda é a solidão?
Fico cá meio perdida, perturbada e ofendida
Pelo fim de meu poema sem uma boa conclusão.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
' Beijo musicado
Eu gosto quando tu cantas
Parece um namoro em que
tua voz beija meus lábios
Ou um poema em que o certo
É ficar calado
Para molhar um outro lábio
Numa canção desconhecida
Porque assim me parece a vida
A cada beijo musicado.
terça-feira, 26 de junho de 2012
' Samara,
Samara falava e seu brinco balançava. Não compreendia nada, me prendia no balbucio risonho de sua boca rosada. Batia no quadro freneticamente ( seu dedo é magrelo), rebolava lentamente ao ritmo de sua voz - as batidas acompanhavam minha respiração e sua dança espontânea merecia minha devoção . Ela falava, eu a lia, ela olhava, eu escrevia, ela parava, eu cabia, ela apagava e eu, nada só sorria.
Minha aula de Direito, qualquer semelhança é mero devaneio.
Minha aula de Direito, qualquer semelhança é mero devaneio.
' Inconstância eterna,
(...) Pinto quando escrevo com a euforia de um cachorro novo
me liberto quando danço, no desembaraço de uma puta velha
Eu escrevo enquanto flamo numa primeira inconstância eterna.
me liberto quando danço, no desembaraço de uma puta velha
Eu escrevo enquanto flamo numa primeira inconstância eterna.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
' Coisa primorosa
Xá de preguiça, amor
Esse medo que nós temos de nós dois
É coisa de menino velho
E eu não sou,
Coisa pequeena
Pega e levanta, amor
Recebe esse meu corpo que é só teu
Fala mansinho jura pura
Diz que é meu
coisa pequeena
Me agarra e dança, amor
Essa dança e me embriaga em teu suor
Juntos nós somos a real entrega e só
Coisa sereena.
sexta-feira, 9 de março de 2012
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
' O valsar que é Deus quem dança
Bia desalmada sob os braços de Arthur
Ela chora quando lança o piar
Do cururu
Velho sapo seu destino
Desatino enfantinado
Era Bia sua luz
e era Arthur o seu fado
Um rei seria mestre num tempo
Purulento
Seria mesmo frio senão fosse
O amigo vento
Mas é de Bia o meu choro
Minha clara lentidão
É a rainha arranhada
Ela é mendiga com o seu cão
É Arthur o que entranha nas margens de um destino
É o rei pobre e negro
Quase santo, deus menino
Mas é Bia sua escolha
Numa encolha tão cruel
Em sua espada com o Vento
Um só corte e um lamento
Traça o dono de uma Bia
Fere o sapo, toma ungüento
Era a moça e eu nas histórias
Agora é bia como lua
E eu no esquecimento
Sofri
Ela chora quando lança o piar
Do cururu
Velho sapo seu destino
Desatino enfantinado
Era Bia sua luz
e era Arthur o seu fado
Um rei seria mestre num tempo
Purulento
Seria mesmo frio senão fosse
O amigo vento
Mas é de Bia o meu choro
Minha clara lentidão
É a rainha arranhada
Ela é mendiga com o seu cão
É Arthur o que entranha nas margens de um destino
É o rei pobre e negro
Quase santo, deus menino
Mas é Bia sua escolha
Numa encolha tão cruel
Em sua espada com o Vento
Um só corte e um lamento
Traça o dono de uma Bia
Fere o sapo, toma ungüento
Era a moça e eu nas histórias
Agora é bia como lua
E eu no esquecimento
Sofri
' Espasmo conjugadoo
' Sei que o meu amado
tenha amado um outro lado
Sei que nesse lado
tem o fardo do passado
Sei que o meu cuidado
é o tardo que eu resguardo
Ah, sei que desse vida
ha quem cure tua ferida,
mas a cada traço que te enlaço
conto um passo,
se são tuas aquelas mãos,
se são tuas as declarações,
o que eu faço?!
Eu paro, sorrio, disfarço,
me caço e passo...
Sei que o meu amado
vai amar um outro lado.
tenha amado um outro lado
Sei que nesse lado
tem o fardo do passado
Sei que o meu cuidado
é o tardo que eu resguardo
Ah, sei que desse vida
ha quem cure tua ferida,
mas a cada traço que te enlaço
conto um passo,
se são tuas aquelas mãos,
se são tuas as declarações,
o que eu faço?!
Eu paro, sorrio, disfarço,
me caço e passo...
Sei que o meu amado
vai amar um outro lado.
' Sutil Pitaco; é
‘ Vamos lá, falando sobre afetação. Afetação segundo meu breve raciocínio, esse mesmo meu, de menina – claro, é o termo que eu aplico ao resultado oposto da obra já posta de um indivíduo disposto a infamar o outro: talento. E assim acrescento nesse envolvimento, o claro elemento que depõe o atento, o outro. O outro que não é penico e que por isso não aplico o tradicional, o moderno, o pós-moderno e o atual. Só por isso replico que o que eu explico não me interessa. E agora já vou, porque sim.
' Movimento do tempo
Hoje pensei numa maturidade, olhando para as folhas secas do quintal da minha vizinha, vi que existem ondas que a sequidão impõe, eu me pareço com elas – as folhas. Cada vento um tintinlar do tempo, um momento, um movimento...
Lamento por minha nostalgia, e se passa o tempo
Cordeiro sem talento
Maltrapilho
E
Agorento
O vento
Eu sou folha
Por favor,
Nenhum mo
v-i
men
to...
Vulfluaaaar
Lamento por minha nostalgia, e se passa o tempo
Cordeiro sem talento
Maltrapilho
E
Agorento
O vento
Eu sou folha
Por favor,
Nenhum mo
v-i
men
to...
Vulfluaaaar
' Bailarinas n'agua
‘ era o balé que eu sozinha aplaudia
Ela era Tereza, ou Cristina, só criança, era Bia
Se só dançavam eram as horas que a pedra sofria
E eu que lia, que pingava, refletia, beliscava, não cabia
Nesse embalo que menina não dá, os cabelos de Bia eram o meu manjar
Me batiam, eu para o sol, com as meninas o que gritava eram lâminas, as línguas, a cuca
E só os gritos empurravam o mito,
Ela era Tereza, ou Cristina, só criança, era Bia
Se só dançavam eram as horas que a pedra sofria
E eu que lia, que pingava, refletia, beliscava, não cabia
Nesse embalo que menina não dá, os cabelos de Bia eram o meu manjar
Me batiam, eu para o sol, com as meninas o que gritava eram lâminas, as línguas, a cuca
E só os gritos empurravam o mito,
' Portela
Tinha uma vila que se chamava Portela
Tinha uma banda que tocava em minha janela
Tinha criança que caia na dança
Eram meninos que batiam em panelas
Tinha um maestro que parecia rei
Era uma arte que jorrava em toda parte
Era uma parte que me chamava para o combate
Eram meninos, eles pareciam negros,
É só isso que eu sei
Tinha uma moça que só rebolava
Ela era branquinha, era magra, era falsa
Nessa mentira tinha eu na porta,
Sambando com eles, ou com as porcas.
Tinha uma banda que tocava em minha janela
Tinha criança que caia na dança
Eram meninos que batiam em panelas
Tinha um maestro que parecia rei
Era uma arte que jorrava em toda parte
Era uma parte que me chamava para o combate
Eram meninos, eles pareciam negros,
É só isso que eu sei
Tinha uma moça que só rebolava
Ela era branquinha, era magra, era falsa
Nessa mentira tinha eu na porta,
Sambando com eles, ou com as porcas.
' O nome eu não sei
‘um lençol também reparte
A herança que o santo me deu
O lençol também é arte
É o encontro do meu com o teu
A arte é só quem parte
O infinito no escuro treleu
O alho também me arde
é a mistura do meu com o teu
A herança que o santo me deu
O lençol também é arte
É o encontro do meu com o teu
A arte é só quem parte
O infinito no escuro treleu
O alho também me arde
é a mistura do meu com o teu
' Um
Nós dois juntos num só samba
Suores doces que embalam a paz,
eu descubro os teus temperos,
tu reparte os meus umbrais.
Suores doces que embalam a paz,
eu descubro os teus temperos,
tu reparte os meus umbrais.
' Bicho da Prissiguida
No ventre de sinhá mulher
Tem carqué coisa desconhecida
Mãe diz que é semente bruta
Preta fala que é o bicho
Da prissiguida
Tem carqué coisa desconhecida
Mãe diz que é semente bruta
Preta fala que é o bicho
Da prissiguida
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
sábado, 14 de janeiro de 2012
' Microconto Fazente... É, depois vem um título, um fim...
... E depois, eu nunca me interessei por sapatos. Um jogo de espíritos, uma luta conjuntural, nada mais fazia sentido. Disquei seu número:
-nada, não fala nada por mim, tenho medo, só isso...
-Sophie, eu não falo a ti
-eu sei, eu sei, mas, foi horrível! Cada curva, minhas pernas, minhas marcas, não sei se me quero, cortei meu cabelo, tenho novas roupas, encaro as pessoas...
- É isso Sophie?
-não quero Paulo, minhas cartas, minha pureza, todas as vezes que me encantei com minhas fotografias, meus jarros eram sempre de pó, por Deus, eu sou cristã.
-é cristã, Sophie
- Não, não! Eu andei, andei muito, fui lá nas improváveis, me encontrei forte,leve, nem mulher nem vida, tinha uma moça, Angélica, tomei assim a sua identidade, ela me matou, disse que eu era o pó dos jarros, as fotografias desgrafadas, os desencontros de espírito. Eu entendi Paulo, eu sou aquilo que de nada se quer, a psique de papel, não fala nada por mim...
-Sophie, morei em ti eternamente até o fim, minha alma se casou com a tua, horizontalmente era o amor inclinado, nosso ponto era o máximo. Feliz Sophie? Não, pesados. Cheios de anjos, fadas e querubins, línguas de palmeira, sexo de rosa. E quem somos Sophie?! O pó dos jarros dos querubins, nem grãos de areia são físicos. Nós? Nem química, nem arte, uma descoberta, todos os livros não lidos, as aventuras estruturais.
-quando me olho no espelho eu sinto vergonha, sem respostas; meu egoísmo, minha infância, as fotografias, o tempo que eu sempre quis guardar, eu sofro, o tempo parou, meu rosto é o mesmo, os pés, os pés Paulo! As fotografias.
- Meu bem, eu te reflito, me faço por ti um tempo perdido todos os dias, na infância eu também tinha pés, eu era os pés, eu sou o pé, o sustentador de sonhos, teu cata-vento, eu sei do teu raciocínio, acho até tua loucura louvável, mas olhe: o sono, a vida sublime do não ter forças para vencer, o sono, o peso, a morte, o invencível, o anjo sem cor, ele Sophie ainda é teu. Dorme, teu sono te vence, sonha, teus espíritos perdem, se deixe pesar. Boa noite querida, amanhã talvez.
-tá...
Imagino ser melhor assim, Sophie é infanta quando resiste a aceitação, quem não se faz assim ao descobrir que de certo é seu o espírito que lhe enfrenta todos os dias e o deixa irreconhecível em frente ao espelho, os traços, o passado resguardado que só ele conhece, viu como senhor e não se inferioriza, se humaniza e se deixa ser refletido como é. O espelho que nos encara com horror e nos desmascara com terríveis inverdades desincorporadas, o espelho de Sophie, o espelho humano, a imaterialidade desregrada sem fluxo do ser, do reconhecer, do saber, do dizer e do aceitar. Sophie sofre; humanos também, mesmo sendo pés de Paulo.
Me deixe clarividenciar este espaço. Sophie é mulher, Paulo usa roupas velhas e alinhadas, Sophie ainda morre, Paulo é escritor.
Escrever é falar, Paulo pouco fala, ele canta, suas histórias são canções escritas por ele quando não pensa. Talvez se ele confiasse nos sentimentos, se ele encontrasse o que Sophie procura, talvez se eles se aceitassem talvez a completude fosse possível.
O apelo familiar afastava Sophie de Paulo, via nele ela mesma, mas nela se via seu pai, pai era seu, o seu seria sempre seu pai, seu pai nunca lhe deu, o seu/eu nunca aceitaria amor, Sophie é de Paulo, Paulo não viu Sophie. Todas as manhãs as mesmas coisinhas de mulher, acordava, pensava, chocava sua vida com as fotografias, levantava, planejava, banhava, se dava, comia e pintava uma mulher de alma. Alma é essência em Sophie, ela é pinta quadros, tem cor de cigarro na tela de Paulo, sua tela é de papel, alem de cantar, ele pinta quando escreve, Sophie pensa papel.
Uma mulher e uma alma não são irmãs, uma mulher e uma alma são caixas e sabão, mulher, a prisão, o não, a vida de alguém, as chaves, a cola, o produto, a venda; mulher, frágil? Sim, se a alma não tiver bolhas, o sabão, a mulher, o encontro, os fluentes, o perfume, a essência, o descaso, os frutos, o querer, o translúcido. Mulher, alma, filosofias e tardes. Encantos e reflexões, as horas que se chocam, a vida que luta; o real que borbulha.
II
Do Paulo de pés, nem o cabelo. Três anos, o tempo que não completa, Sophie é corpo, uma longe fivela, os sapatos de Paulo, o retrato na porta, o batom no espelho, a mancha no azulejo.
- Oi, um espanto e três lágrimas escorridas do mesmo olho – o esquerdo.
- Eu entendo, eu até voei até aqui, você... Bem, você veio, eu queria mesmo ser assim; Oi...
- Sophie, cabelos leves, pode entrar, não tenho jarros, varri a casa e seu retrato ainda está na porta.
Cada ano, cada lágrima, nenhuma história, eram seres humanos sem marca, Paulo cuspiu na pia, era louça marrom, mas o que de fato queria era vomitar cada espanto e abraçar a sua mulher, 22 anos, sem sardas, era Sophie, ela era dele, era a mulher em Paulo.
-nada, não fala nada por mim, tenho medo, só isso...
-Sophie, eu não falo a ti
-eu sei, eu sei, mas, foi horrível! Cada curva, minhas pernas, minhas marcas, não sei se me quero, cortei meu cabelo, tenho novas roupas, encaro as pessoas...
- É isso Sophie?
-não quero Paulo, minhas cartas, minha pureza, todas as vezes que me encantei com minhas fotografias, meus jarros eram sempre de pó, por Deus, eu sou cristã.
-é cristã, Sophie
- Não, não! Eu andei, andei muito, fui lá nas improváveis, me encontrei forte,leve, nem mulher nem vida, tinha uma moça, Angélica, tomei assim a sua identidade, ela me matou, disse que eu era o pó dos jarros, as fotografias desgrafadas, os desencontros de espírito. Eu entendi Paulo, eu sou aquilo que de nada se quer, a psique de papel, não fala nada por mim...
-Sophie, morei em ti eternamente até o fim, minha alma se casou com a tua, horizontalmente era o amor inclinado, nosso ponto era o máximo. Feliz Sophie? Não, pesados. Cheios de anjos, fadas e querubins, línguas de palmeira, sexo de rosa. E quem somos Sophie?! O pó dos jarros dos querubins, nem grãos de areia são físicos. Nós? Nem química, nem arte, uma descoberta, todos os livros não lidos, as aventuras estruturais.
-quando me olho no espelho eu sinto vergonha, sem respostas; meu egoísmo, minha infância, as fotografias, o tempo que eu sempre quis guardar, eu sofro, o tempo parou, meu rosto é o mesmo, os pés, os pés Paulo! As fotografias.
- Meu bem, eu te reflito, me faço por ti um tempo perdido todos os dias, na infância eu também tinha pés, eu era os pés, eu sou o pé, o sustentador de sonhos, teu cata-vento, eu sei do teu raciocínio, acho até tua loucura louvável, mas olhe: o sono, a vida sublime do não ter forças para vencer, o sono, o peso, a morte, o invencível, o anjo sem cor, ele Sophie ainda é teu. Dorme, teu sono te vence, sonha, teus espíritos perdem, se deixe pesar. Boa noite querida, amanhã talvez.
-tá...
Imagino ser melhor assim, Sophie é infanta quando resiste a aceitação, quem não se faz assim ao descobrir que de certo é seu o espírito que lhe enfrenta todos os dias e o deixa irreconhecível em frente ao espelho, os traços, o passado resguardado que só ele conhece, viu como senhor e não se inferioriza, se humaniza e se deixa ser refletido como é. O espelho que nos encara com horror e nos desmascara com terríveis inverdades desincorporadas, o espelho de Sophie, o espelho humano, a imaterialidade desregrada sem fluxo do ser, do reconhecer, do saber, do dizer e do aceitar. Sophie sofre; humanos também, mesmo sendo pés de Paulo.
Me deixe clarividenciar este espaço. Sophie é mulher, Paulo usa roupas velhas e alinhadas, Sophie ainda morre, Paulo é escritor.
Escrever é falar, Paulo pouco fala, ele canta, suas histórias são canções escritas por ele quando não pensa. Talvez se ele confiasse nos sentimentos, se ele encontrasse o que Sophie procura, talvez se eles se aceitassem talvez a completude fosse possível.
O apelo familiar afastava Sophie de Paulo, via nele ela mesma, mas nela se via seu pai, pai era seu, o seu seria sempre seu pai, seu pai nunca lhe deu, o seu/eu nunca aceitaria amor, Sophie é de Paulo, Paulo não viu Sophie. Todas as manhãs as mesmas coisinhas de mulher, acordava, pensava, chocava sua vida com as fotografias, levantava, planejava, banhava, se dava, comia e pintava uma mulher de alma. Alma é essência em Sophie, ela é pinta quadros, tem cor de cigarro na tela de Paulo, sua tela é de papel, alem de cantar, ele pinta quando escreve, Sophie pensa papel.
Uma mulher e uma alma não são irmãs, uma mulher e uma alma são caixas e sabão, mulher, a prisão, o não, a vida de alguém, as chaves, a cola, o produto, a venda; mulher, frágil? Sim, se a alma não tiver bolhas, o sabão, a mulher, o encontro, os fluentes, o perfume, a essência, o descaso, os frutos, o querer, o translúcido. Mulher, alma, filosofias e tardes. Encantos e reflexões, as horas que se chocam, a vida que luta; o real que borbulha.
II
Do Paulo de pés, nem o cabelo. Três anos, o tempo que não completa, Sophie é corpo, uma longe fivela, os sapatos de Paulo, o retrato na porta, o batom no espelho, a mancha no azulejo.
- Oi, um espanto e três lágrimas escorridas do mesmo olho – o esquerdo.
- Eu entendo, eu até voei até aqui, você... Bem, você veio, eu queria mesmo ser assim; Oi...
- Sophie, cabelos leves, pode entrar, não tenho jarros, varri a casa e seu retrato ainda está na porta.
Cada ano, cada lágrima, nenhuma história, eram seres humanos sem marca, Paulo cuspiu na pia, era louça marrom, mas o que de fato queria era vomitar cada espanto e abraçar a sua mulher, 22 anos, sem sardas, era Sophie, ela era dele, era a mulher em Paulo.
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