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sábado, 23 de março de 2013

Da tarde


Tenho amaldiçoado todas as companhias. Os sons me aborrecem e a alegria me causa enjôo. Tenho sido desprezado por Deus que não se compadece com a minha dor, que leva a cada um dos meus poucos olhos infantis para junto de um inferno, de outro inferno que não este sobre qual eu vivo.

Tenho sido mentiroso, eu menti a cada palavra que anteriormente disse, menti, minto e a tudo desdigo. Santa desgraça é a falta de caráter de um escritor, bem podia eu me enforcar agora, mas não... bendita seja a covardia de um poeta, apodreço na minha vaidade, e por pior que seja, não suportaria viver noutra vida, a menos que fosse uma vida diferente da minha, veja, mais uma vez me desdisse. 

Crês em mim ainda? Continua a ler bobagens? Pois saibas que és pior que eu. Que se, por artimanha do diabo, te visse na rua, cuspiria a teus pés, amaldiçoaria a minha sorte e logo após sair da calçada, te esqueceria.

Pense você, estar por um instante ao meu lado, seria a maior de tuas vantagens.Não somos parecidos? Eu escrevo o que detesto e você deseja ser eu.

Passou um pouco da minha alucinação, desejo falar sobre... não sei o que desejo falar... já que sou eu quem conduz a conversa, vamos tratar dos vermes, em como comemos uns aos outros enquanto nos olhamos, em como fazemo-nos mal, no quanto parasitamos, viu? Continuo na mesma história, ainda é a relação escritor/leitor, a mesma que agora repudias. Não diga que não, te odiaria mais ainda.

quinta-feira, 21 de março de 2013

A boca, só a boca

O que me encanta na boca dos outros? era a pergunta imbecil que não saia da minha cabeça enquanto lavava meu rosto. Fiquei diante da pia, em frente ao espelho durante um tempinho... o que me encanta? A boca é um presente, me sugeria, e seu fado é o prazer, concluí. Mas e o sorriso, é presente para a boca, ou da boca é o carinho?

Este é o momento em que você deve dizer: quanta idiotice, pensamento sem magia! E eu lhes digo, é mesmo e tão somente é.

A boca foi feita para o encanto, o encontro, a lascívia, os prazeres, a boca tem que ser roubada, a boca do roubo é boca dada.

A boca é o segredo, o escondido, o íntimo, o pecado particular.

A boca é o céu da língua, a umidade que aquece o fogo.

A boca é desenho, é o sal, é o sulco, o doce.

A boca é o rito da demência, feita para os sustos, a vulva, desenhada para o amparo.

A boca é o desafio da alma, é quem acalma, quem come, movimenta e lambe.

A boa é o final.

E para a boca, o vulgar, a fantasia, os cheiros, os sucos que só deus quem sabe.

Na boca, a virgindade, o selo, o pau.

Besteira é ficar sem se esfregar numa boca.

Pronto, agora que os dentes estão escovados, monitoria de Penal.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Hein...


As primeiras perguntas do primeiro diálogo do primeiro encontro:

Quantas vezes por dia você chora?
Quantas vezes você chora?
Você chora todo dia?
Você chora de dia ou de noite?
Me responde,
Você chora?

E com emoção - bem mais que a minha - me agarrou por entre o peito,
acariciou meu cabelo, sorriu.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Se convidar, eu canto

E se falarmos sobre cantar? Aí eu fico ainda mais feliz. Sim, eu canto contando meus passos enquanto ando pela rua, eu canto igual uma doidinha, canto mesmo, canto só... canto pra mim, eu canto e assobio.

Eu canto com toda a minha preguiça de sair, eu canto assustando quem ousa me olhar mexendo os lábios, eu canto sorrindo e batendo os dedos na bolsa, na perna, depende do timbre que desejo alcançar.

Eu canto desde criancinha, não, na verdade eu assobiava, e assobiava muito, minha mãe vivia brigando - Menina, deixa de ser doida! - minha mãe ainda briga (dizendo a mesma coisa).

Eu canto, canto a segunda voz para meu pai, ele lá no mato e eu, aqui.

Eu canto e depois não sei mais cantar.

Eu canto esperando meus aplausos, eu aplaudo porque sou eu sozinha no palco.

Eu canto escrevendo, agora, por exemplo, estou cantando, canto Renato Godá.

Eu canto, busco qualquer música do Sérgio Sampaio e faço um lamento, tem dias que venho lá de Portugal cantando... Outras vezes sou a companhia de palco de Maria Rita, eu juro que sou eu a sombra depois da bateria fazendo a voz saltar.

Eu canto com Zaz todos os dias, é bem verdade que eu acordo cantando, mas se canto, danço, de cintura solta no banho, escorregando e rebolando.

Eu canto para me seduzir, eu seduzi olhos cegos enquanto falava cantando.

Eu canto o sofrimento, o sofrimento por todas as dores, é uma chatice ter um esqueleto que também gosta de cantar.

Se quiser me convidar para um show, eu vou lá e canto... mesmo que ninguém me ouça cantar.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Amanheceu

Mas se você acordasse, amor
eu te daria as horas
eu te daria as horas
de quem nunca viveu.

Antes que acordasse, amor
eu te daria botões
das rosas os botões
um perfume só teu.

Deixa de dengo e acorda, amor,
vem beijar quem sofreu,
com beijos de preguiça, nega...

Abre os olhos pra ver,
mais um sorriso
o dia é o segredo.

Amanheceu.

Bestinha que doi

Será normal que a cada passo que eu dou
sentir o aperto que o passado cometeu?

Seria crime se ao pensar em te matar
o futuro se esquecesse de chegar?

                 Quem tanto acusa esse velho peito
                  meu?

Três versinho mal contados pra amanhã,
                 ou depois,
                       talvez.

Veja, menino

Veja que não me canso de falar em nós dois
Vejo o quanto é manso ao lembrar como foi
Meus olhos nos teus, cabelos ao ar
No escuro. minha noite, senti teu vulto chegar.

Huuuuum...

Veja que não me canso de cantar pra nós dois
Veja só, menino, o futuro já foi.

Nós dois por lá, depois de uma história,
o conto de quem lembrava do amor.

Ah neguinho, teu colo é meu
Olha só, menino, esse colo é meu
Ah menino, teu colo é meu

                          Teu colo é meu
                          Teu colo é meu
                          Teu colo é meu