Estive com ele, mal me lembro; era noite e eu pouco entendia.
Importante? Não, eu estava lá, eu estive com ele. Meu enredo é simples, digamos
que o meu argumento seja o pouco entendimento. De quê? Qualquer coisa, qualquer
situação ou sentimento. O simples entender, ou... O nem querer saber – que seria
melhor (ao menos mais honesto). Enfim, repito: eu estive com ele.
Numa noite pouco pura, meio clara, meio escura, decidi que
sairia e que por menos e mais modesta, abandonaria meu espírito imundo,
sofrido. Me poria em sacrifício, fosse o que fosse. Em detalhes me planejei para
este dia: depois de um banho rápido,
desprovido de pensamentos, me vestiria. Roupas novas e talvez bonitas – o menos
provável seria a beleza – calçaria chinelos leves, usaria cabelos soltos. Canibal,
comeria minhas unhas, estaria nervosa, de algum modo eu o encontraria. Pouco
perfume e olhos pesados, seguiria até o térreo, abriria o portão, desceria rua
abaixo, me depararia com uma praça, sentaria no último banco do lado esquerdo,
de frente para o cemitério. Ali esperaria, estaria com ele, sei que me encontraria.
Assim fiz, senhor velho. Com licença, depois de uma pequena pausa continuarei
minha história. Antes me conte, há em tuas lembranças um olhar mais triste que
o meu?
Pronto. Fiz exatamente como havia planejado, sozinha no
banco fiquei sentada por algum tempo, 3 horas para ser justa. Era ele, o
escritor desconhecido (fisicamente, claro), meu pertence mais íntimo. Durante
17 anos esperei por seu afago, ele foi ao meu encontro. Ah, Senhor Velho, tenho
certeza de que nada além de nós dois existiu no mundo naquele momento, naquele
singelo tempo, foi ali, bem ali o princípio do entendimento: é só para o amor
que o coração existe.
No início eu disse que pouco me lembrava, era mentira. Penso
todos os dias no tempo em que fui querida, é... Eu fui.
Você começa a entender Senhor, porque não posso me alegrar? Seus
olhos caídos eram uma espécie de liberdade onde eu podia dançar sozinha num
espetáculo em que ele me aplaudia, era minha platéia, quando eu cantava, era
uma poeta desesperançosa, ele ria, me achava sutil. Vítima do arrebol sedutor:
a luz de seus cabelos no brilho da pele. Havia mesmo tanta beleza assim? Ora,
este é o segundo entendimento: nossos sentidos foram criados para a
extravagância do outro. Havia nele a perfeição.
Hoje, olhe pra mim. Por onde anda a leveza, a poesia, Senhor
Velho? Eu me lembro de ti. E tu, do que ainda gosta em mim? É esse peso que
hoje te alegra? Ainda sou tua, querido. Me encontre, há tempo. Não peço a tua
compreensão.
Por aqui, sem um final desejado, quiçá sem muito fôlego.
Termino meu texto. Sem desdizer nada que disse no começo, o argumento seria o
de não entender, o que pra mim seria honesto. Este é o último entendimento.

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