Estive ontem na casa de dona Doura, senhora distinta, dada
por muitos como louca – o que não me causa incômodo. De alguma forma senti que
deveria conversar com ela para me entender um pouco mais; uma velha, pobre,
louca, suja e reclusa numa casa de taipa no meio da caatinga, seria meu melhor
analista.
Deixa eu dizer como tudo aconteceu; enquanto passava férias
na minha cidadezinha, visitei vários povoados com o meu pai, em busca de ração
para o gado, desfazendo as ordens de Deus e tentando não deixar nossas crias
morrerem. Deus olha a morte e sorri.
Ouvia rumores da morte de um velho vaqueiro, que fora
assassinado por um vizinho que sabia que no chão, embaixo do tamborete da mesa
da cozinha, encostado a parede ao lado do fogão, enterrada estava uma pequena
fortuna, da venda do gado de leite; nada mais que cinco mil torrões.
Sempre que alguém narrava a história triste da viúva
sofredora que gritava vendo seu marido morto no beiço da porta com as tripas espalhadas
pelo terreiro, me causava arrepio, um arrepio de desconfiança, de quem sabe quando
uma história tem fim.
Por acaso ou destino, ou só a velha me chamando, ontem de manhã
fui parar na palhoça da Doura, melhor dizendo, debaixo do cajueiro, na porta da
casa dela, sentada no banco de madeira contando as lagartas que se arrastavam
pelo terreiro da velha – lagarta de fogo.
Doura me apareceu na porta, disse que precisava me falar,
entrei na sua casa como desafiante de boteco, mal encarada. Ela me disse:
- Mistério é mistério, o diabo deve saber.
Perguntei do que falava, e ela... me ofereceu tripas de bode
pra comer.

Nenhum comentário:
Postar um comentário