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domingo, 9 de setembro de 2012

' O Último entendimento


Estive com ele, mal me lembro; era noite e eu pouco entendia. Importante? Não, eu estava lá, eu estive com ele. Meu enredo é simples, digamos que o meu argumento seja o pouco entendimento. De quê? Qualquer coisa, qualquer situação ou sentimento. O simples entender, ou... O nem querer saber – que seria melhor (ao menos mais honesto). Enfim, repito: eu estive com ele.

Numa noite pouco pura, meio clara, meio escura, decidi que sairia e que por menos e mais modesta, abandonaria meu espírito imundo, sofrido. Me poria em sacrifício, fosse o que fosse. Em detalhes me planejei para este dia: depois de um banho rápido, desprovido de pensamentos, me vestiria. Roupas novas e talvez bonitas – o menos provável seria a beleza – calçaria chinelos leves, usaria cabelos soltos. Canibal, comeria minhas unhas, estaria nervosa, de algum modo eu o encontraria. Pouco perfume e olhos pesados, seguiria até o térreo, abriria o portão, desceria rua abaixo, me depararia com uma praça, sentaria no último banco do lado esquerdo, de frente para o cemitério. Ali esperaria, estaria com ele, sei que me encontraria. Assim fiz, senhor velho. Com licença, depois de uma pequena pausa continuarei minha história. Antes me conte, há em tuas lembranças um olhar mais triste que o meu?

Pronto. Fiz exatamente como havia planejado, sozinha no banco fiquei sentada por algum tempo, 3 horas para ser justa. Era ele, o escritor desconhecido (fisicamente, claro), meu pertence mais íntimo. Durante 17 anos esperei por seu afago, ele foi ao meu encontro. Ah, Senhor Velho, tenho certeza de que nada além de nós dois existiu no mundo naquele momento, naquele singelo tempo, foi ali, bem ali o princípio do entendimento: é só para o amor que o coração existe.

No início eu disse que pouco me lembrava, era mentira. Penso todos os dias no tempo em que fui querida, é... Eu fui.

Você começa a entender Senhor, porque não posso me alegrar? Seus olhos caídos eram uma espécie de liberdade onde eu podia dançar sozinha num espetáculo em que ele me aplaudia, era minha platéia, quando eu cantava, era uma poeta desesperançosa, ele ria, me achava sutil. Vítima do arrebol sedutor: a luz de seus cabelos no brilho da pele. Havia mesmo tanta beleza assim? Ora, este é o segundo entendimento: nossos sentidos foram criados para a extravagância do outro. Havia nele a perfeição.

Hoje, olhe pra mim. Por onde anda a leveza, a poesia, Senhor Velho? Eu me lembro de ti. E tu, do que ainda gosta em mim? É esse peso que hoje te alegra? Ainda sou tua, querido. Me encontre, há tempo. Não peço a tua compreensão.

Por aqui, sem um final desejado, quiçá sem muito fôlego. Termino meu texto. Sem desdizer nada que disse no começo, o argumento seria o de não entender, o que pra mim seria honesto. Este é o último entendimento.

terça-feira, 26 de junho de 2012

' Samara,

Samara falava e seu brinco balançava. Não compreendia nada, me prendia no balbucio risonho de sua boca rosada. Batia no quadro freneticamente ( seu dedo é magrelo), rebolava lentamente ao ritmo de sua voz - as batidas acompanhavam minha respiração e sua dança espontânea merecia minha devoção . Ela falava, eu a lia, ela olhava, eu escrevia, ela parava, eu cabia, ela apagava e eu, nada só sorria.

Minha aula de Direito, qualquer semelhança é mero devaneio.

sábado, 14 de janeiro de 2012

' Microconto Fazente... É, depois vem um título, um fim...

... E depois, eu nunca me interessei por sapatos. Um jogo de espíritos, uma luta conjuntural, nada mais fazia sentido. Disquei seu número:
-nada, não fala nada por mim, tenho medo, só isso...
-Sophie, eu não falo a ti
-eu sei, eu sei, mas, foi horrível! Cada curva, minhas pernas, minhas marcas, não sei se me quero, cortei meu cabelo, tenho novas roupas, encaro as pessoas...
- É isso Sophie?
-não quero Paulo, minhas cartas, minha pureza, todas as vezes que me encantei com minhas fotografias, meus jarros eram sempre de pó, por Deus, eu sou cristã.
-é cristã, Sophie
- Não, não! Eu andei, andei muito, fui lá nas improváveis, me encontrei forte,leve, nem mulher nem vida, tinha uma moça, Angélica, tomei assim a sua identidade, ela me matou, disse que eu era o pó dos jarros, as fotografias desgrafadas, os desencontros de espírito. Eu entendi Paulo, eu sou aquilo que de nada se quer, a psique de papel, não fala nada por mim...
-Sophie, morei em ti eternamente até o fim, minha alma se casou com a tua, horizontalmente era o amor inclinado, nosso ponto era o máximo. Feliz Sophie? Não, pesados. Cheios de anjos, fadas e querubins, línguas de palmeira, sexo de rosa. E quem somos Sophie?! O pó dos jarros dos querubins, nem grãos de areia são físicos. Nós? Nem química, nem arte, uma descoberta, todos os livros não lidos, as aventuras estruturais.
-quando me olho no espelho eu sinto vergonha, sem respostas; meu egoísmo, minha infância, as fotografias, o tempo que eu sempre quis guardar, eu sofro, o tempo parou, meu rosto é o mesmo, os pés, os pés Paulo! As fotografias.
- Meu bem, eu te reflito, me faço por ti um tempo perdido todos os dias, na infância eu também tinha pés, eu era os pés, eu sou o pé, o sustentador de sonhos, teu cata-vento, eu sei do teu raciocínio, acho até tua loucura louvável, mas olhe: o sono, a vida sublime do não ter forças para vencer, o sono, o peso, a morte, o invencível, o anjo sem cor, ele Sophie ainda é teu. Dorme, teu sono te vence, sonha, teus espíritos perdem, se deixe pesar. Boa noite querida, amanhã talvez.
-tá...
Imagino ser melhor assim, Sophie é infanta quando resiste a aceitação, quem não se faz assim ao descobrir que de certo é seu o espírito que lhe enfrenta todos os dias e o deixa irreconhecível em frente ao espelho, os traços, o passado resguardado que só ele conhece, viu como senhor e não se inferioriza, se humaniza e se deixa ser refletido como é. O espelho que nos encara com horror e nos desmascara com terríveis inverdades desincorporadas, o espelho de Sophie, o espelho humano, a imaterialidade desregrada sem fluxo do ser, do reconhecer, do saber, do dizer e do aceitar. Sophie sofre; humanos também, mesmo sendo pés de Paulo.

Me deixe clarividenciar este espaço. Sophie é mulher, Paulo usa roupas velhas e alinhadas, Sophie ainda morre, Paulo é escritor.

Escrever é falar, Paulo pouco fala, ele canta, suas histórias são canções escritas por ele quando não pensa. Talvez se ele confiasse nos sentimentos, se ele encontrasse o que Sophie procura, talvez se eles se aceitassem talvez a completude fosse possível.
O apelo familiar afastava Sophie de Paulo, via nele ela mesma, mas nela se via seu pai, pai era seu, o seu seria sempre seu pai, seu pai nunca lhe deu, o seu/eu nunca aceitaria amor, Sophie é de Paulo, Paulo não viu Sophie. Todas as manhãs as mesmas coisinhas de mulher, acordava, pensava, chocava sua vida com as fotografias, levantava, planejava, banhava, se dava, comia e pintava uma mulher de alma. Alma é essência em Sophie, ela é pinta quadros, tem cor de cigarro na tela de Paulo, sua tela é de papel, alem de cantar, ele pinta quando escreve, Sophie pensa papel.
Uma mulher e uma alma não são irmãs, uma mulher e uma alma são caixas e sabão, mulher, a prisão, o não, a vida de alguém, as chaves, a cola, o produto, a venda; mulher, frágil? Sim, se a alma não tiver bolhas, o sabão, a mulher, o encontro, os fluentes, o perfume, a essência, o descaso, os frutos, o querer, o translúcido. Mulher, alma, filosofias e tardes. Encantos e reflexões, as horas que se chocam, a vida que luta; o real que borbulha.



II
Do Paulo de pés, nem o cabelo. Três anos, o tempo que não completa, Sophie é corpo, uma longe fivela, os sapatos de Paulo, o retrato na porta, o batom no espelho, a mancha no azulejo.
- Oi, um espanto e três lágrimas escorridas do mesmo olho – o esquerdo.
- Eu entendo, eu até voei até aqui, você... Bem, você veio, eu queria mesmo ser assim; Oi...
- Sophie, cabelos leves, pode entrar, não tenho jarros, varri a casa e seu retrato ainda está na porta.
Cada ano, cada lágrima, nenhuma história, eram seres humanos sem marca, Paulo cuspiu na pia, era louça marrom, mas o que de fato queria era vomitar cada espanto e abraçar a sua mulher, 22 anos, sem sardas, era Sophie, ela era dele, era a mulher em Paulo.

quarta-feira, 11 de maio de 2011