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sábado, 17 de novembro de 2012

Silêncio


Estive ontem na casa de dona Doura, senhora distinta, dada por muitos como louca – o que não me causa incômodo. De alguma forma senti que deveria conversar com ela para me entender um pouco mais; uma velha, pobre, louca, suja e reclusa numa casa de taipa no meio da caatinga, seria meu melhor analista.

Deixa eu dizer como tudo aconteceu; enquanto  passava férias na minha cidadezinha, visitei vários povoados com o meu pai, em busca de ração para o gado, desfazendo as ordens de Deus e tentando não deixar nossas crias morrerem. Deus olha a morte e sorri.

Ouvia rumores da morte de um velho vaqueiro, que fora assassinado por um vizinho que sabia que no chão, embaixo do tamborete da mesa da cozinha, encostado a parede ao lado do fogão, enterrada estava uma pequena fortuna, da venda do gado de leite; nada mais que cinco mil torrões.

Sempre que alguém narrava a história triste da viúva sofredora que gritava vendo seu marido morto no beiço da porta com as tripas espalhadas pelo terreiro, me causava arrepio, um arrepio de desconfiança, de quem sabe quando uma história tem fim.

Por acaso ou destino, ou só a velha me chamando, ontem de manhã fui parar na palhoça da Doura, melhor dizendo, debaixo do cajueiro, na porta da casa dela, sentada no banco de madeira contando as lagartas que se arrastavam pelo terreiro da velha – lagarta de fogo.

Doura me apareceu na porta, disse que precisava me falar, entrei na sua casa como desafiante de boteco, mal encarada. Ela me disse:
- Mistério é mistério, o diabo deve saber.
Perguntei do que falava, e ela... me ofereceu tripas de bode pra comer.

De Doura, da conversa e de ontem entendi: silêncio.

A realeza de Ester


Sempre ficava confusa pela manhã, era como se algo fosse perdido durante a noite, talvez seja apenas a ressaca de fantasias que a realidade trazia, mas Ester demorava a se recompor. Durante o banho escrevia vários poemas, cantarolava novas canções, pensava até em arranjo pra o violino – o banho se tornava uma extensão dos primeiros sonhos.

 Enquanto preparava seu café, se imaginava morando no campo, conseguia até sentir o cheiro da relva matinal, fazia de conta que a margarina era manteiga fresca e que o café tinha sido colhido no quintal. Esquecida de sua vida campestre, esticava seu notebook na mesa, ao lado, uma torre de livros e começava a estudar; ficava se imaginando uma mente importante, com grandes responsabilidades quanto ao estudo social do crime. 

A terra de Ester era a mesma terra da infância, com o mesmo cheiro de água molhada, com as mesmas mãos criando castelos, com a mesma mente fabulando com pedras, arranjando um destino perdido para alguma flor de feijão ou pé de goiaba. Ester cresceu, deveria ser mais astuta, pelo menos mais racional, Deus lhe deu uma mente brilhante, poderia ser destaque intelectual, mas qual?! Ester é poeta, assim sempre será.

Em qualquer cidade que chegar será saudada pelos súditos que se curvarão na beira da estrada, acenando com uma flor na mão, as crianças nos ombros dos pais, sorrindo e gritando por seu nome.

Todos sabem, todos notam a realeza de Ester.