Quando a noite chegou, me senti liberta. Com o ritual de amor próprio que há pouco havia aprendido, arranquei o velho vestido preto decotado do armário, a lingerie mais cara me tocava, de meias três quarto e batom vermelho, me admirei no espelho, era uma perfeita viúva desregrada. Ele, deitado no sofá da sala, assistia uma coisa qualquer, o que lhe servisse melhor que eu.
Enquanto encarava minha decisão frente ao espelho, chorava, doía, mas o choro é amansador. A hora perfeita era aquela, peguei meu celular, minha bolsa, chequei a carteira, revirei meus documentos; me sentei de novo na cama, chorei. Levantei, ainda com soluços discretos, me perfumei. Fui a sala, beijei Arthur na testa, disse adeus. Ele, atordoado, me encarou enraivecido, num só golpe se levantou do sofá e me tirou de frente da TV.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
A paixão é assustadora
Às vezes fico me beliscando, tapeando pra ver se ainda estou aqui, se ainda existo.
Que coisa louca esse negócio de a outra pessoa ocupar todo o espaço que existe em você, pior ainda é que vai além, vai além de seu próprio corpo; ele fica lá, na cadeira da varanda, no livro de Sociologia, na mesa, no birô, na torneira da cozinha. E, ainda, nos trejeitos alheios, nos rostos estranhos na rua, nas atendentes infelizes do Paraíba. Você se assusta de sobressalto porque, essa loucura de espaços ocupados é o que te deixa feliz, é o que te dá segurança, é a forma mais delicada de ser palhaça, de ser boba.
Como pode?! Só estando louca. Ah, tem dias que dá vontade até de apertar a campainha só pra sentir aquele friozinho na barriga, ouvir barulho, é o barulhinho sinfônico da chegada dele, é o sinal: agora ele ocupa só o meu abraço.
Que coisa louca esse negócio de a outra pessoa ocupar todo o espaço que existe em você, pior ainda é que vai além, vai além de seu próprio corpo; ele fica lá, na cadeira da varanda, no livro de Sociologia, na mesa, no birô, na torneira da cozinha. E, ainda, nos trejeitos alheios, nos rostos estranhos na rua, nas atendentes infelizes do Paraíba. Você se assusta de sobressalto porque, essa loucura de espaços ocupados é o que te deixa feliz, é o que te dá segurança, é a forma mais delicada de ser palhaça, de ser boba.
Como pode?! Só estando louca. Ah, tem dias que dá vontade até de apertar a campainha só pra sentir aquele friozinho na barriga, ouvir barulho, é o barulhinho sinfônico da chegada dele, é o sinal: agora ele ocupa só o meu abraço.
Um tanto de Sara
Você sabe aqueles tempos em que a fantasia é mais lúcida que
qualquer outra coisa em você? Que tu andas por aí como se dançasse ciranda? Que
olha para dentro dos Correios com dó dos atendentes sentenciados a não sorrir?
Sabe essas coisas? Pois é... Estou na fase mágica da maturidade.
Percebe que minha maturidade está a um passo da infância?
Ainda semana passada planejei me comportar como adulta,
vestir roupas um tantinho mais longas, ir pra academia retardar a menopausa,
economizar dinheiro sujo pra comprar um carrinho, um casebre, planejar meu escritório.
Imaginei o tempo em que cogitaria a idéia de fazer franjinha
e chorar por não ter mais vinte anos. Me vi longe, lá no futuro... Numa época
em que hoje é a fase feliz.
Lá onde eu me via, não enxerga um tempo largo. Não me vi
cantando na sala, nem tinha violino ou violão detrás da porta. Nem as graças do
amor devoto.
Minhas plantinhas não estavam no peitoril das janelas...
Eu imaginei tudo isso meio embaralhado. No fim do dia ao
relembrar as frescuras, sorri. Devaneios insensatos.
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