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domingo, 28 de outubro de 2012

Da pasta: Sara


Língua afiada é coisa de idiota; língua bonita é língua na boca, língua inteligente é língua calada.

' Da pasta: besteira


Escrita e solidão, puta e solidão, paixão e escravidão, poeta e nada; nada é pior que solidão, melhor seria se fosse escrava.

Não sei nada sobre títulos


Palavras contadas, minguadas, fio por fio.
Palavras poucas, palavras vazias,
Nenhuma palavra.
Acabou.

' Horas arrastadas


Bar, isso, numa mesa de bar. Era tarde com horas lentas daqueles dias arrastados, estava lá, sentado, charmoso, mal educado, velho, porco. Entre bebidas, cafés, cigarros e livros, solitário. Você quer saber? Foi o que de mais bonito vi em minha vida.

Se me atrevi a sentar-me à mesa? Sim. Fui convidada. Se estive nervosa?! Por favor, fale mais alto, ou melhore o tom da fala, não consigo te entender. Ah, sim, sim. Não estava nervosa, normalmente fico em paz quando encontro sombra na escuridão, coisa de poeta, de vagabundo, coisa minha, de gente cega. Pois não, prosseguirei. Fui admirada por ele. 

A admiração – confesso -, não me deixa envaidecida, seu poder é outro, fico amedrontada, porque que ali, como posso explicar?! Claro, se estabelece uma espécie de vínculo entre o admirador e o admirado; sempre tenho a impressão de que preciso corresponder as expectativas, o que não consigo. Viro estátua, não faço mais nada. Mas olhe, naquele dia nada disso aconteceu. 

Fui sabatinada, foi bonito, estava livre, era um coração como o meu. Ele chorou, isso me emociona, ele chorou quando falei de algum Kovisky, penso que também tenha chorado. Depois ele bebeu, me elogiou e disse que de política não entendia nada. Eu sorri, abandonei o velho negro no canto, fui embora desimportante. 

Um dia lento, desses que as horas passam arrastadas.

' Zenete


Zenete vinha do interior, de um interior qualquer perdido no tempo e no mapa. Com uma beleza exagerada de cabelos grandes, boca grande, olhos grandes, cara marcada. Zenete tinha esperança, esperava fazer a vida como mulher importante, mulher estudada, mulher elegante, mulher admirada. Zenete era boba, de uma bobice invejada, acreditava nas palavras, não sabia que palavras ditas são palavras contadas. Mas Zenete era jovem, jovem inteligente, desistiu de ser mulher importante, foi ser mulher mudada. Mudou o interior que tinha, encontrou o que havia perdido, fez de sua vida a marcação do tempo. Pintou os olhos grandes, soltou seus cabelos, pensou coisas importantes, andava em más companhias, admiração não tinha, era invejada. Zenete sofria, agora sofria adulta, sozinha e calada.

' Desacelerada


Desacelerada. Estou assim, sem pressa pra nada, sem gosto nenhum
Insossa, em paz, em pó, atrás.
Atrás de arranque, de ser arrancada, de uma batida, de ser montada.
Montada. Estou assim, enfeitada por palavras, palavras em desordem,
Sem preferências, sem paixão, engoda.
Gorda. Estou assim, gordura e baba; sem beleza, hipócrita, um nada.
Nada, nada é assim, finito, burro, imundo.