O anel que antes vestia o dedo indicador, agora se aventura no dedo médio. O tempo passa e os dedos se atrofiam, mãos delicadas são o molde de dedos tortos, gordos. O tempo que amaldiçoa, o tempo que nos racha. As veias são de um verde acusador, parece que gritam: Inchamos para o encontro com as agulhas! Amputem minhas mãos, removam minhas marcas, ceguem os meus olhos...
A vaidade não me permite espelhos, companhia, nada. A vaidade anuncia o que planejo, morrer sozinha, murcha. Ser esquecida. Porque é assim que o tempo funciona, se conhece a vida esticando os dedos.
Olho minhas mãos por cima de meus olhos, confronto meu medo.
domingo, 2 de junho de 2013
terça-feira, 28 de maio de 2013
Ao gozo lento
Bom dia, que saudade de escrever com tempo livre, de ler com tempo livre, de assistir, tomar sorvete, dormir, fuçar na internet com tempo livre...
Mas tudo bem, a correria tem me ajudado muito, meus prazeres se tornam ainda mais valiosos. Olho pra minha lista de filmes e digo: é jazim viu, Bertolucci?! Não demora muito e eu volto, volto inteira.
Mas enfim, esse post não é para lamentos, é um post festivo, alegre, escrevo em comemoração. Viva a História, viva os historiadores, viva a intensidade, o compromisso, a profundidade e a sacanagem da erudição. Viva a Del Priore, viva.
Pois bem, sou uma admiradora confessa da historiadora Mary Del Priore, coleciono as falas, imposições, teses, aparições, me delicio com o que aprendo. A memória do meu tablet é dedicada a escrita dela, minha biblioteca virtual se preenche com ela. Agradável companhia.
Acontece que recentemente encontrei ali numa livraria, o livro que há tempos sonhava em ter (sonhava mesmo, mesmo, mesmo) Histórias Íntimas - Sexualidade e erotismo na história do Brasil. Foi o início de minha saga, do conta conta de moedinhas, de dinheiro poupado, precisava atingir meu alvo, aquele livro era minha emergência. Labutei, labutei até que me arranjei. E pimba! O livro era meu.
Depois de tê-lo em mãos, segui para a faculdade, estava atrasada para a monitoria de Direito Penal II - ah, tudo bem, feliz, meus passos se alargavam, minha boca se alargava, o tempo de espera em sala de aula se encurtava, o começo da leitura estava pertinho. Foi uma boa tarde aquela.
Desde então, minha liberdade dedico a ela. São intervalos, passeios, substituição da soneca...
O livro é lindo, a escrita encantadora, é ritmado, vivo. Ouve-se Renato Godá e Filipe Catto durante as leituras para alinhar-se ainda mais ao refinamento das falas. Troca-se o capítulo, alterna-se a música, ambienta-se compassadamente a outro modo de requinte: o requinte do texto dado. O requinte do estilo próprio.
Em Histórias Íntimas mescla-se sensações, num momento, ao se surpreender com a história contada, torna-se inevitável o sorriso, a gargalhada mesmo. Noutro, o asco. Daqui a poco, o dó, a compaixão. Contudo, o aprendizado vem página após página. Por mais que o desejo seja de devorar o livro de uma vez só, pra mim, ele foi feito para um gozo lento, ardência demorada na pele, beijos longos...
É assim, precisava falar o tanto que fosse sobre esse meu momento. À volonté para a aquisição do livro, depois me conte sobre seu gozo.
P.S.
Minha paciência anda pequena, sem interpretações, sem a palavra.
terça-feira, 21 de maio de 2013
Deu saudade do poeminha antigo - Sara Gesse
Sara Borboleta no sonho de uma Princesa
Quando Sara era criança um dia ela chorou
Quando Sara era criança um dia ela chorou
brincou com a inocência, mas logo acordou.
Nos olhos de uma menina o sonho se perdeu,
a indolência floresceu e a pureza se findou.
Na visão da borboleta o sonho ainda pairava,
a púrpura surgia e a inocência indefinida ficava.
De repente Sara disse: não devia ter nascido.
Mas Sara não sabia que na verdade já havia morrido.
Sara como princesa de uma escura e vasta imensidão não nascera como os humanos
- e nem morrera como os pobres.
Sara é altíssima,
não tem alma nem vida!
Sara existe porque ama enquanto dita'.
Vida que é, vida que foi.
Vida sem vida de forma mortal, mas por fim e subitamente - infinita.
Nos olhos de uma menina o sonho se perdeu,
a indolência floresceu e a pureza se findou.
Na visão da borboleta o sonho ainda pairava,
a púrpura surgia e a inocência indefinida ficava.
De repente Sara disse: não devia ter nascido.
Mas Sara não sabia que na verdade já havia morrido.
Sara como princesa de uma escura e vasta imensidão não nascera como os humanos
- e nem morrera como os pobres.
Sara é altíssima,
não tem alma nem vida!
Sara existe porque ama enquanto dita'.
Vida que é, vida que foi.
Vida sem vida de forma mortal, mas por fim e subitamente - infinita.
sexta-feira, 17 de maio de 2013
A filha da tia
Tenho muita dificuldade em fazer novas amizades, passo bastante tempo sozinha. Na infância, filha única de meus pais, eu era a rainha de todos os meus brinquedos, da atenção família, do jardim, de tios e primos - prima caçula, sobrinha caçula, neta caçula.
Minha certeza era de que o mundo inteiro tinha sido feito pra mim.
Aos 3 anos, papai me comprou uma coleção de contos de fada, junto aos livros vieram as fitas que narravam as historinhas. Ah, como é bom lembrar daquele dia! Eu quase endoideci, minha mãe rezava a mesma missa todo dia, repetia, repetia, repetia as mesmas histórias, eu só conseguia dormir quando ela não queria mais rezar, dormia zangada, de bico e tudo mais.
Um dia, enquanto acompanhava as continhos pela fita, notei que as cenas que soavam em meu walkman casavam com as gravuras, pronto! A missa agora era minha, tantas vezes repeti que aprendi a ler, lia sem a necessidade de soletrar, lia porque o melhor era ler sozinha.
Esse foi o começo de uma vida com poucos amigos. Quem ficaria na biblioteca comigo? Para as colegas, eu era a filha da tia.
E ser a filha da tia as deixava odiadas. Eu? tanto fazia a tia, tanto fazia elas, tanto fazia eles. Ainda hoje tanto faz.
As meninas faziam complô, se juntava para não falar comigo... Os meninos, rum. Por que me notariam? Enfim.
E assim segui até a sexta série. Lá eu tinha os meus, minhas companhias, outros iguais a mim: Tiago, Tâmara, Maria Claudeane e Felipe Augusto. Formamos um grupo secreto, tínhamos reuniões artísticas (risos), roubávamos livros, fugíamos da escola para ler na lagoa, assistir filmes... Fugíamos dos outros. Crianças, já éramos da confiança do Zé Reis, o dono da locadora. Somos até hoje, soltos, mas nunca nos esqueceu.
Chegamos juntos no ensino médio, preguiçosos e com dois novos amigos, Bruna e José Henrique, só a Bruna não roubava livros.
Nada nos faltava, tínhamos a arte em nosso grupo, conhecíamos e debatíamos sobre qualquer coisa, o amor naquela fase era primeiro plano apenas da Bruna, doce Bruna, doce Bruna.
Nas aulas de Português - aff - era bilhetinho pra todo lado, eu mandava meus poemas, Tiago mostrava seus desenhos, Bruna compartilhava crônicas, Tâmara criticava tudo, Claudene estava noutra classe e Felipe foi-se embora pelo mundo. E quando ele foi, foi difícil sair do banho, não conseguia parar de chorar.
Por tê-los comigo, tinha a firmeza por eterna, mesmo depois de 2009 tudo continuaria fácil, era só ligar. Mas não, cada qual seguiu seu rumo, cada um achou sua parte, se perdeu... Perdeu de si. Não de nós, somos unos, ainda somos. Partilhamos do degaste dos outros. Sumimos e voltamos. Eu tenho a história de amizade para contar.
Agora, depois que parei por aqui, numa cidade tediosa, tudo ficou mais delicado, tudo virou saudade, e para o futuro peço a Deus os mesmos amigos. Eu não sei fazer amizade.
É... sou bem feliz assim. Isaac me entende e aprendeu a amar minhas lembranças. Tiago até desenha pra ele.
Se me aprofundasse no meu egoísmo e seguisse estudando a mim, além de minha pouca memória, diria que pra ser meu amigo, nem precisa me amar, nem me dar atenção, nem ser da minha confiança, agora que vivo grande, sendo ainda mais criança e fazendo da solidão meu melhor brinquedo digo apenas que para ser amigo, basta estar longe, não chegar.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
Da minha quietude
Eu deveria estar desesperada neste momento - confesso que uma mão está, mas só uma mão - Tenho quatro provas hoje, não me preparei para nenhuma avaliação, nem mesmo sei quais os assuntos que deveria ter estudado.
Acontece que só cheguei a esse ponto porque resolvi me disciplinar, dividi matérias e estudei fielmente capítulo por capítulo, escavaquei achados na internet, renovei minha biblioteca e relaxei com chás. Me esqueci apenas de uma coisa: preciso de sincronia com o curso.
Oh céus, quanto mais disciplina, mais avulsa!
Passei a manhã de hoje me entendo com Vladimir Safatle, a infelicidade do mundo e coisa e tal.
Juro que se meus professores me deixassem livre, eu faria a melhor prova que já viram. É só me questionar, sou devagar, monossilábica, mas respondo, pode perguntar ao professor Henrique.
Por mim tá tudo bem, meus planos estão em ordem, daqui a pouquinho termino o curso e FINALMENTE iniciarei minhas teses e as leituras mais agradáveis.
Ah, vivo na contramão... é assim mesmo. Aos professores, meu velho discurso: distância entre nós.
je ne veux pas travailler!
:D
terça-feira, 14 de maio de 2013
Sobre o devaneio
Talvez deva ser mais colorida, divertida e embriagada.
Talvez deva usar roupas curtas, apertadas e brincos grandes; ter passos firmes e rebolado desconcertante.
Na verdade, talvez deva cortar os cabelos, tirar o esmalte vermelho, colocar um tênis e correr na avenida.
Talvez precise ser tagarela, com a manchinha de batom nos dentes e usar cinto de laço para delinear a cintura.
Talvez deixe de ser ela, e deixando de sorrir, me deixe também.
Se me deixasse e, de algum modo se transformasse, estando longe perceberia, veria que tudo muda e, calada ainda estaria aqui.
Ah menina, vê se deixa de crescer.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
Aos sentidos
Cá estamos mais uma vez para tratarmos de qualquer coisa que nos inspire por uns tantos. O que seria hoje? A origem do mundo, 1866 e Courbet.
Eu não sei o que escrever, penso que em cima das lendas que cercam o quadro há o suficiente para nos corroer, nos incomodar e violentar ainda mais que o próprio sexo à mostra. Mas já que iniciei minha fala, quero dizer um pouco mais, e dizer que ao olhar A origem do mundo, não me sinto mais envergonhada como antes ficava, me silencio. Fecho meus olhos nos primeiros segundos apenas por reverência - esqueça, eu não tenho pudor.
Quando Gustave Courbert dizia que só podia pintar aquilo que via, me desligo de meu feitio e não me aproprio de sua inspiração, de nada... o artista nasceu pra ver, simplesmente ver, com os olhos, com as mãos, com os dedos, com o tempo, os ouvidos, com a pele, com os cheiros, simplesmente ver. O entendimento perturba a arte, comigo é assim, eu gosto de fantasiar, de sentir, de ouvir as mentiras que o artista tem pra me contar quanto a inspiração porque minha curiosidade fica atiçada. Pela especulação. Ele sentiu.
O que me atrai mesmo é o que não foi dito. Veja, o quadro não tem rosto, é aí que eu entro... fantasio em paz. Para Courbert, a vagina não precisava de rosto, os pelos de minha nuca ficam suficientemente arrepiados. Preste atenção, não estou aqui dizendo que não seja importante o cuidado em entender, não, não mesmo. Digo tão somente que o sentimento é a minha defesa, que sentir é o que me rege. Sinto prazer em conhecer, em saber, enlouqueço com o que sinto, é só isso (risos).
Por sentir demais devo confessar, sonho com uma reprodução do quadro, bem como sonho com o meu espaço para colocá-lo - o cantinho em que ficarei guardada -, da mesma forma que sonho com o cômodo para me esconder, do mesmo em que sonho com a sua posição em minha parede, com o tempo em que ficarei de olhos fechados sabendo que ao abrir terei a Origem do mundo em minha frente. Eu sonho.
O que pensava Lacan, esperava assim como eu, o cômodo para fechar os olhos?! Não... eu não sei. Elisabeth Roudinesco - biógrafa de Lacan - diz que mesmo ele, o homem que atordoava o sentido dos outros, se resguardava da força da imagem, a mantinha coberta por uma cortina e somente pessoas que ele desejasse, veriam o quadro. O que Lacan sentia?
O artista faz aquilo que vê. Pernas abertas ainda corroem o mundo? O espectador sente além do que vê.
E entre as pernas, a nossa origem. Por debaixo dos pelos, bem mais que o rosto, na fenda, os dedos de Courbert tocando a tela, pincelando a vulva, encarando os peitos. Vi demais sobre o quadro, falei mais do que gosto de falar e mesmo assim não disse nada. Queria mesmo parar aqui, sem nada a dizer, não hoje, quero só mostrar, mostro que explico, mas... eu só posso sentir.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
E que eu ouça Davide Van de Sfross
Pois então, e aquelas músicas que corrompem as oiças?! Tenho uma lista sem fim das canções preferidas, dos cantores que me acompanham a vida. Mas, agora eu preciso falar sobre Davide Van de Sfross. Preciso muito mesmo, oh céus! Quero passar o dia inteiro trancada num quarto com um som explodindo, ouvindo Sfross, dançando e deslizando junto ao violino...
Não consigo comparar Davide a ninguém, quero mesmo nem saber... só quero ouvir, meu Deus que insano!
Fico me imaginando como parte de seu espetáculo, me rasgando a goela, a cintura e os ombros acompanhando os tambores, tentando seguir a nota, seguir o mesmo passo, seguir junto.
Acho que estou apaixonada, quero Davide como padrinho; quem tratará de meu amor platônico?
Tenho uma proposta a fazer, podemos fugir os três, eu, você e meu par. Cuidaremos da arte por uma semana, é o tempo que enjoo a sua companhia, volto pra casa e você faz uma canção pra mim, terá por nome, Sara, a menina. Aí você me esquece, mas eu e meu par continuaremos te ouvindo e faremos contos com as lembranças... é só uma proposta, o melhor que posso fazer, você quem decide, Van Sfross.
Viu?! La ballata del Cimino.
Fora de brincadeira, o mundo carece de Davide. Nem sei como vivia sem ele, ainda bem que quem me ama me amou tanto que me deixou um presente em meu e-mail, foi isso bem aqui que ele me deu: Brèva & Tivan - 10 il duello. Obrigada.
Acorde cedo no próximo sábado, abra a janela do quarto, pegue o livro de Lígia Fagundes Telles - se continua me lendo até aqui é porque você guardou Lígia em sua coleção - que fica na estante depois do guarda-roupa, abra sua versão de Histórias escolhidas e leia o primeiro conto. Leia ouvindo a seguinte canção: Nona Lucia. Depois dance, estarei aqui dançando com você.
Bom dia.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Sobre Anne Sexton e eu
Bom dia! Bom dia cheio de febre, garganta inflamada, bom dia.
Bom dia, poesia, bom dia.
Estou feliz porque hoje quem me visitou o peito foi a Anne Sexton, como me anima quando me encontra, como me preenche o dia.
Anne não é tão conhecida no Brasil, não se tem um fácil acesso à sua bibliografia, poucos são os poemas traduzidos, mas não se precisa de poemas infindos, ao lado de Anne basta o sussurro da frase, o afago do ritmo, basta saber que ela escreveu um dia, basta ler um fragmento tendo certeza de que ela fechava os olhos, tomava seus remédio e os escrevia - minha livre ilustração - ou não, pensar que escreveu indelicada, desafiada, inibida, vulgar, nua... não sei, me confundo toda ao pensar em Anne, minha Anne...
Já fiquei horas repetindo Tudo em mim é um pássaro, Tudo em mim é um pássaro, Tudo em mim é um pássaro. Tudo em mim é latente, tudo em mim é febril, tudo em mim é inseguro, tudo em mim é de todo uma certeza, tudo em mim voa, tudo em mim, tudo em mim, tudo em mim é um pássaro.
Doce peso em celebração da mulher que sou.
Não canto uma nota sequer posto que tudo em mim é um pássaro, tudo em mim é grito, tudo está em silêncio, tudo em mim se vai, vai e volta... tudo em mim é um pássaro.
Não gostaria de ter estado com Anne, nos unimos porque estou aqui, se me escolheu foi mesmo porque a escolhi.
Um pouco de nós:
EM CELEBRAÇÃO DO MEU ÚTERO
Tudo em mim é um pássaro.
Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.
Diziam que estavas incomensuravelmente vazio
mas não estás.
Diziam que estavas doente prestes a morrer
mas estavam errados.
Cantas como uma colegial
Tu não estás desfeito.
Doce peso,
em celebração da mulher que sou
e da alma da mulher que sou
e da criatura central e do seu prazer
canto para ti. Atrevo-me a viver.
Olá, espírito. Olá, taça.
Fixar, cobrir. Cobre o que contém.
Olá, terra dos campos.
Bem-vindas, raízes.
(...)
Doce peso
em celebração da mulher que sou
deixa-me levar uma echarpe de três metros,
deixa-me tocar o tambor pelas que têm dezanove anos,
deixa-me levar taças para oferecer
(se é isso o que me toca).
deixa-me estudar o tecido cardiovascular,
deixa-me calcular a distância angular dos meteoros,
deixa-me chupar o pecíolo das flores
(se é isso o que me toca).
Deixa-me imitar certas figuras tribais
(se é isso o que me toca).
Pois o corpo preciso disso,
que me deixes cantar
para a ceia,
para o beijo,
para a correcta
afirmação.
Tradução de Jorge Sousa Braga.
Um vídeo, não me pergunte quantas vezes vi, será mais um de nossos segredos. Fale com Anne.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
A vergonha e a dor
Hoje. Agora, senti uma vergonha
agoniada, uma vergonha que angustia o corpo, deixa os goles de água amargos, e
o rosto sem vontade de se repetir; a vergonha pari a angústia e a angústia me
humilha.
Fico aqui, entre o chão e uma
cova, desejando caber em qualquer caixa de sapato antigo, de sapato esquecido,
ficar na companhia dos velhos, empoeirados, eu e meu par, em silêncio. O
silêncio faz a vergonha gritar.
Quando estou envergonhada, uivo,
às vezes baixo, outras... Num lamento que espanta os céus! Eu uivo me rasgando,
pedindo socorro ao meu passado, clamo por piedade, por alguns minutos antes do
consumado, antes do suplício, antes do mau estado. Eu agora estou grunhindo, sou um cão, uma
cadela sem cria, sem par, sem orgulho.
Me lembrei das primeiras letras
de minha vida, das primeiras leituras, lia os segredos de meu pai, segurava a
alma de um escritor, e ele, pobre pai, acreditava na minha inocência.
Eu lia o que meu pai esquecia,
lia suas cartas, suas canções, suas poesias, histórias... Eu lia, eu relia, eu
me via. Meu pai é meu, o Édipo que me esqueça.
Me envergonho por saber demais,
os pais tem que ser mistério, tem que ser repetição, o meu pai é meu livro
aberto, sou nele tudo o que não sei de mim, me reparo em cada gesto seu, eu
sorrio o seu sorriso e atrepo minhas penas para almoçar. Pai, eu prometo cantar
mais, cantar no banheiro e fingir que o senhor não se demora no quarto só para
me escutar.
Não é justo, não é justo tanta
curiosidade e displicência de uma pequena, mas preste atenção, eu esperava meus
pais se afastarem. Quando via meu pai arrumando uma geladeira, e minha mãe
cuidando nas louças, era minha hora, era minha degustação, melhor que qualquer
pedaço de melancia gelado, melhor que abacate com banana, ou culto de domingo
de manhã.
Tinha meu ritual sagrado, era uma
questão de louvor a mim, um brinde a nós: criança e segredo de velho, ao
silêncio e paz que me acompanham, ou não.
Apanhava seus caderninhos na
última gaveta da cômoda, despejava tudo no chão, entre minhas pernas e os pés
da cama, quase que valsávamos. Quem foi
meu pai em 79, em São Paulo? Quem descobria meu pai antes de mim?
Junto a seu tesouro tinhas as
fotos, essas eu nunca tratei de desvendar, as fotos antigos foram feitas para
os sonhos, a gente olha, se encara e desvia o olhar. Guarda o que não precisou
ser dito e dispensa qualquer poesia que venha delas, é assim comigo, o retrato
antigo foi feito para adorar.
Olhava tudo e ficava atenta,
qualquer movimento e tudo estava acabado.
Entendeu a minha vergonha? Tudo
bem, eu lhe digo, papai deixava o seu espírito dedilhado em papéis, tudo
arquitetado, o pai se deixava ser escritor só pra eu olhar.
Mas o pior, agora estou agarrada
ao chão.
Eu lia, tudo lia, lia o diário do
ajudante de meu pai, o senhor que morou com índios, lia o que o compadre
escrevia, sem querer me segredar, lia tudo em voz alta. E por ser subordinado a
meu pai, se deixava envergonhar.
Nunca mais quero ver ninguém,
joguem ácido sobre meus olhos, que o ácido queime e que morra sem olhar, não se
grita o que o poeta não deseja falar.
sexta-feira, 5 de abril de 2013
O delírio
Mesmo tendo em mim um turbilhão de timidez, escrevo. Não escrevo como gostaria, mas deixo meus muuuuitos caderninhos e diários e agendas e bloquinhos e papeizinhos bobos e paredes e quadros e espelhos, deixo tudo rabiscado, tudo é relembrado. Sabe o nome de minha mania? mapeação da alma.
É o desejo que sinto por mim.
Gosto de ver os meus pedaços, minha caricatura espalhada, talvez sejam mesmo os meus cacos, uno minhas charadas, me venço, me avesso e me desconheço.
No meu romance, sou meu par.
É como quem se encara nu, sentindo tesão e repulsa por si, é saber o que o espelho não diz, é sentir vergonha do quanto se acha molhada.
Mas eu confesso, gosto de estar assim, tenho a rotina de encontro e desencontros com o ontem, o hoje e o que nunca existiu, comigo ou com qualquer situação que eu tenha criado, tenho olhos as vistas, cara a cara com quem me quer ver.
Tenho a beleza de um amor que dura, esse mesmo narcisista, com língua na minha língua, mãos sobre meus peitos, todos os dias debruçada sobre mim.
Ele tocou no meu silêncio
Eu tenho um silêncio que tudo fala por mim,
e no silêncio, eu sou o que falta,
que me cala e basta,
me toca e afaga,
me tranca a boca
porque poeta que fala, trava, estanca e mata
e o bom poema
se perde no
fim.
xxxx
e no silêncio, eu sou o que falta,
que me cala e basta,
me toca e afaga,
me tranca a boca
porque poeta que fala, trava, estanca e mata
e o bom poema
se perde no
fim.
xxxx
sábado, 23 de março de 2013
Da tarde
Tenho amaldiçoado todas as companhias. Os sons me aborrecem
e a alegria me causa enjôo. Tenho sido desprezado por Deus que não se compadece
com a minha dor, que leva a cada um dos meus poucos olhos infantis para junto
de um inferno, de outro inferno que não este sobre qual eu vivo.
Tenho sido mentiroso, eu menti a cada palavra que
anteriormente disse, menti, minto e a tudo desdigo. Santa desgraça é a falta de
caráter de um escritor, bem podia eu me enforcar agora, mas não... bendita seja
a covardia de um poeta, apodreço na minha vaidade, e por pior que seja, não
suportaria viver noutra vida, a menos que fosse uma vida diferente da minha,
veja, mais uma vez me desdisse.
Crês em mim ainda? Continua a ler bobagens? Pois saibas que
és pior que eu. Que se, por artimanha do diabo, te visse na rua, cuspiria a
teus pés, amaldiçoaria a minha sorte e logo após sair da calçada, te
esqueceria.
Pense você, estar por um instante ao meu lado, seria a maior de
tuas vantagens.Não somos parecidos? Eu escrevo o que detesto e você deseja
ser eu.
Passou um pouco da minha alucinação, desejo falar sobre...
não sei o que desejo falar... já que sou eu quem conduz a conversa, vamos
tratar dos vermes, em como comemos uns aos outros enquanto nos olhamos, em como
fazemo-nos mal, no quanto parasitamos, viu? Continuo na mesma história, ainda é
a relação escritor/leitor, a mesma
que agora repudias. Não diga que não, te odiaria mais ainda.
quinta-feira, 21 de março de 2013
A boca, só a boca
O que me encanta na boca dos outros? era a pergunta imbecil que não saia da minha cabeça enquanto lavava meu rosto. Fiquei diante da pia, em frente ao espelho durante um tempinho... o que me encanta? A boca é um presente, me sugeria, e seu fado é o prazer, concluí. Mas e o sorriso, é presente para a boca, ou da boca é o carinho?
Este é o momento em que você deve dizer: quanta idiotice, pensamento sem magia! E eu lhes digo, é mesmo e tão somente é.
A boca foi feita para o encanto, o encontro, a lascívia, os prazeres, a boca tem que ser roubada, a boca do roubo é boca dada.
A boca é o segredo, o escondido, o íntimo, o pecado particular.
A boca é o céu da língua, a umidade que aquece o fogo.
A boca é desenho, é o sal, é o sulco, o doce.
A boca é o rito da demência, feita para os sustos, a vulva, desenhada para o amparo.
A boca é o desafio da alma, é quem acalma, quem come, movimenta e lambe.
A boa é o final.
E para a boca, o vulgar, a fantasia, os cheiros, os sucos que só deus quem sabe.
Na boca, a virgindade, o selo, o pau.
Besteira é ficar sem se esfregar numa boca.
Pronto, agora que os dentes estão escovados, monitoria de Penal.
segunda-feira, 18 de março de 2013
Hein...
As primeiras perguntas do primeiro diálogo do primeiro encontro:
Quantas vezes por dia você chora?
Quantas vezes você chora?
Você chora todo dia?
Você chora de dia ou de noite?
Me responde,
Você chora?
E com emoção - bem mais que a minha - me agarrou por entre o peito,
acariciou meu cabelo, sorriu.
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