Hoje. Agora, senti uma vergonha
agoniada, uma vergonha que angustia o corpo, deixa os goles de água amargos, e
o rosto sem vontade de se repetir; a vergonha pari a angústia e a angústia me
humilha.
Fico aqui, entre o chão e uma
cova, desejando caber em qualquer caixa de sapato antigo, de sapato esquecido,
ficar na companhia dos velhos, empoeirados, eu e meu par, em silêncio. O
silêncio faz a vergonha gritar.
Quando estou envergonhada, uivo,
às vezes baixo, outras... Num lamento que espanta os céus! Eu uivo me rasgando,
pedindo socorro ao meu passado, clamo por piedade, por alguns minutos antes do
consumado, antes do suplício, antes do mau estado. Eu agora estou grunhindo, sou um cão, uma
cadela sem cria, sem par, sem orgulho.
Me lembrei das primeiras letras
de minha vida, das primeiras leituras, lia os segredos de meu pai, segurava a
alma de um escritor, e ele, pobre pai, acreditava na minha inocência.
Eu lia o que meu pai esquecia,
lia suas cartas, suas canções, suas poesias, histórias... Eu lia, eu relia, eu
me via. Meu pai é meu, o Édipo que me esqueça.
Me envergonho por saber demais,
os pais tem que ser mistério, tem que ser repetição, o meu pai é meu livro
aberto, sou nele tudo o que não sei de mim, me reparo em cada gesto seu, eu
sorrio o seu sorriso e atrepo minhas penas para almoçar. Pai, eu prometo cantar
mais, cantar no banheiro e fingir que o senhor não se demora no quarto só para
me escutar.
Não é justo, não é justo tanta
curiosidade e displicência de uma pequena, mas preste atenção, eu esperava meus
pais se afastarem. Quando via meu pai arrumando uma geladeira, e minha mãe
cuidando nas louças, era minha hora, era minha degustação, melhor que qualquer
pedaço de melancia gelado, melhor que abacate com banana, ou culto de domingo
de manhã.
Tinha meu ritual sagrado, era uma
questão de louvor a mim, um brinde a nós: criança e segredo de velho, ao
silêncio e paz que me acompanham, ou não.
Apanhava seus caderninhos na
última gaveta da cômoda, despejava tudo no chão, entre minhas pernas e os pés
da cama, quase que valsávamos. Quem foi
meu pai em 79, em São Paulo? Quem descobria meu pai antes de mim?
Junto a seu tesouro tinhas as
fotos, essas eu nunca tratei de desvendar, as fotos antigos foram feitas para
os sonhos, a gente olha, se encara e desvia o olhar. Guarda o que não precisou
ser dito e dispensa qualquer poesia que venha delas, é assim comigo, o retrato
antigo foi feito para adorar.
Olhava tudo e ficava atenta,
qualquer movimento e tudo estava acabado.
Entendeu a minha vergonha? Tudo
bem, eu lhe digo, papai deixava o seu espírito dedilhado em papéis, tudo
arquitetado, o pai se deixava ser escritor só pra eu olhar.
Mas o pior, agora estou agarrada
ao chão.
Eu lia, tudo lia, lia o diário do
ajudante de meu pai, o senhor que morou com índios, lia o que o compadre
escrevia, sem querer me segredar, lia tudo em voz alta. E por ser subordinado a
meu pai, se deixava envergonhar.
Nunca mais quero ver ninguém,
joguem ácido sobre meus olhos, que o ácido queime e que morra sem olhar, não se
grita o que o poeta não deseja falar.
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