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segunda-feira, 15 de abril de 2013

A vergonha e a dor



Hoje. Agora, senti uma vergonha agoniada, uma vergonha que angustia o corpo, deixa os goles de água amargos, e o rosto sem vontade de se repetir; a vergonha pari a angústia e a angústia me humilha.

Fico aqui, entre o chão e uma cova, desejando caber em qualquer caixa de sapato antigo, de sapato esquecido, ficar na companhia dos velhos, empoeirados, eu e meu par, em silêncio. O silêncio faz a vergonha gritar.

Quando estou envergonhada, uivo, às vezes baixo, outras... Num lamento que espanta os céus! Eu uivo me rasgando, pedindo socorro ao meu passado, clamo por piedade, por alguns minutos antes do consumado, antes do suplício, antes do mau estado.  Eu agora estou grunhindo, sou um cão, uma cadela sem cria, sem par, sem orgulho.

Me lembrei das primeiras letras de minha vida, das primeiras leituras, lia os segredos de meu pai, segurava a alma de um escritor, e ele, pobre pai, acreditava na minha inocência.

Eu lia o que meu pai esquecia, lia suas cartas, suas canções, suas poesias, histórias... Eu lia, eu relia, eu me via. Meu pai é meu, o Édipo que me esqueça.

Me envergonho por saber demais, os pais tem que ser mistério, tem que ser repetição, o meu pai é meu livro aberto, sou nele tudo o que não sei de mim, me reparo em cada gesto seu, eu sorrio o seu sorriso e atrepo minhas penas para almoçar. Pai, eu prometo cantar mais, cantar no banheiro e fingir que o senhor não se demora no quarto só para me escutar.

Não é justo, não é justo tanta curiosidade e displicência de uma pequena, mas preste atenção, eu esperava meus pais se afastarem. Quando via meu pai arrumando uma geladeira, e minha mãe cuidando nas louças, era minha hora, era minha degustação, melhor que qualquer pedaço de melancia gelado, melhor que abacate com banana, ou culto de domingo de manhã.

Tinha meu ritual sagrado, era uma questão de louvor a mim, um brinde a nós: criança e segredo de velho, ao silêncio e paz que me acompanham, ou não.

Apanhava seus caderninhos na última gaveta da cômoda, despejava tudo no chão, entre minhas pernas e os pés da cama, quase que valsávamos.  Quem foi meu pai em 79, em São Paulo? Quem descobria meu pai antes de mim?

Junto a seu tesouro tinhas as fotos, essas eu nunca tratei de desvendar, as fotos antigos foram feitas para os sonhos, a gente olha, se encara e desvia o olhar. Guarda o que não precisou ser dito e dispensa qualquer poesia que venha delas, é assim comigo, o retrato antigo foi feito para adorar.

Olhava tudo e ficava atenta, qualquer movimento e tudo estava acabado.

Entendeu a minha vergonha? Tudo bem, eu lhe digo, papai deixava o seu espírito dedilhado em papéis, tudo arquitetado, o pai se deixava ser escritor só pra eu olhar.

Mas o pior, agora estou agarrada ao chão.

Eu lia, tudo lia, lia o diário do ajudante de meu pai, o senhor que morou com índios, lia o que o compadre escrevia, sem querer me segredar, lia tudo em voz alta. E por ser subordinado a meu pai, se deixava envergonhar.

Nunca mais quero ver ninguém, joguem ácido sobre meus olhos, que o ácido queime e que morra sem olhar, não se grita o que o poeta não deseja falar.

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