Tenho muita dificuldade em fazer novas amizades, passo bastante tempo sozinha. Na infância, filha única de meus pais, eu era a rainha de todos os meus brinquedos, da atenção família, do jardim, de tios e primos - prima caçula, sobrinha caçula, neta caçula.
Minha certeza era de que o mundo inteiro tinha sido feito pra mim.
Aos 3 anos, papai me comprou uma coleção de contos de fada, junto aos livros vieram as fitas que narravam as historinhas. Ah, como é bom lembrar daquele dia! Eu quase endoideci, minha mãe rezava a mesma missa todo dia, repetia, repetia, repetia as mesmas histórias, eu só conseguia dormir quando ela não queria mais rezar, dormia zangada, de bico e tudo mais.
Um dia, enquanto acompanhava as continhos pela fita, notei que as cenas que soavam em meu walkman casavam com as gravuras, pronto! A missa agora era minha, tantas vezes repeti que aprendi a ler, lia sem a necessidade de soletrar, lia porque o melhor era ler sozinha.
Esse foi o começo de uma vida com poucos amigos. Quem ficaria na biblioteca comigo? Para as colegas, eu era a filha da tia.
E ser a filha da tia as deixava odiadas. Eu? tanto fazia a tia, tanto fazia elas, tanto fazia eles. Ainda hoje tanto faz.
As meninas faziam complô, se juntava para não falar comigo... Os meninos, rum. Por que me notariam? Enfim.
E assim segui até a sexta série. Lá eu tinha os meus, minhas companhias, outros iguais a mim: Tiago, Tâmara, Maria Claudeane e Felipe Augusto. Formamos um grupo secreto, tínhamos reuniões artísticas (risos), roubávamos livros, fugíamos da escola para ler na lagoa, assistir filmes... Fugíamos dos outros. Crianças, já éramos da confiança do Zé Reis, o dono da locadora. Somos até hoje, soltos, mas nunca nos esqueceu.
Chegamos juntos no ensino médio, preguiçosos e com dois novos amigos, Bruna e José Henrique, só a Bruna não roubava livros.
Nada nos faltava, tínhamos a arte em nosso grupo, conhecíamos e debatíamos sobre qualquer coisa, o amor naquela fase era primeiro plano apenas da Bruna, doce Bruna, doce Bruna.
Nas aulas de Português - aff - era bilhetinho pra todo lado, eu mandava meus poemas, Tiago mostrava seus desenhos, Bruna compartilhava crônicas, Tâmara criticava tudo, Claudene estava noutra classe e Felipe foi-se embora pelo mundo. E quando ele foi, foi difícil sair do banho, não conseguia parar de chorar.
Por tê-los comigo, tinha a firmeza por eterna, mesmo depois de 2009 tudo continuaria fácil, era só ligar. Mas não, cada qual seguiu seu rumo, cada um achou sua parte, se perdeu... Perdeu de si. Não de nós, somos unos, ainda somos. Partilhamos do degaste dos outros. Sumimos e voltamos. Eu tenho a história de amizade para contar.
Agora, depois que parei por aqui, numa cidade tediosa, tudo ficou mais delicado, tudo virou saudade, e para o futuro peço a Deus os mesmos amigos. Eu não sei fazer amizade.
É... sou bem feliz assim. Isaac me entende e aprendeu a amar minhas lembranças. Tiago até desenha pra ele.
Se me aprofundasse no meu egoísmo e seguisse estudando a mim, além de minha pouca memória, diria que pra ser meu amigo, nem precisa me amar, nem me dar atenção, nem ser da minha confiança, agora que vivo grande, sendo ainda mais criança e fazendo da solidão meu melhor brinquedo digo apenas que para ser amigo, basta estar longe, não chegar.

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