Páginas

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Aos sentidos

Cá estamos mais uma vez para tratarmos de qualquer coisa que nos inspire por uns tantos. O que seria hoje? A origem do mundo, 1866 e Courbet.

Eu não sei o que escrever, penso que em cima das lendas que cercam o quadro há o suficiente para nos corroer, nos incomodar e violentar ainda mais que o próprio sexo à mostra. Mas já que iniciei minha fala,  quero dizer um pouco mais, e dizer que ao olhar A origem do mundo, não me sinto mais envergonhada como antes ficava, me silencio. Fecho meus olhos nos primeiros segundos apenas por reverência - esqueça, eu não tenho pudor.






















Quando Gustave Courbert dizia que só podia pintar aquilo que via, me desligo de meu feitio e não me aproprio de sua inspiração, de nada... o artista nasceu pra ver, simplesmente ver, com os olhos, com as mãos, com os dedos,  com o tempo, os ouvidos, com a pele, com os cheiros, simplesmente ver. O entendimento perturba a arte, comigo é assim, eu gosto de fantasiar, de sentir, de ouvir as mentiras que o artista tem pra me contar quanto a inspiração porque minha curiosidade fica atiçada. Pela especulação. Ele sentiu.

O que me atrai mesmo é o que não foi dito. Veja, o quadro não tem rosto, é aí que eu entro... fantasio em paz. Para Courbert, a vagina não precisava de rosto, os pelos de minha nuca ficam suficientemente arrepiados. Preste atenção, não estou aqui dizendo que não seja importante o cuidado em entender, não, não mesmo. Digo tão somente que o sentimento é a minha defesa, que sentir é o que me rege. Sinto prazer em conhecer, em saber, enlouqueço com o que sinto, é só isso (risos).


Por sentir demais devo confessar, sonho com uma reprodução do quadro, bem como sonho com o meu espaço para colocá-lo - o cantinho em que ficarei guardada -, da mesma forma que sonho com o cômodo para me esconder, do mesmo em que sonho com a sua posição em minha parede, com o tempo em que ficarei de olhos fechados sabendo que ao abrir terei a Origem do mundo em minha frente. Eu sonho.

O que pensava Lacan, esperava assim como eu, o cômodo para fechar os olhos?! Não... eu não sei. Elisabeth Roudinesco - biógrafa de Lacan - diz que mesmo ele, o homem que atordoava o sentido dos outros, se resguardava da força da imagem, a mantinha coberta por uma cortina e somente pessoas que ele desejasse, veriam o quadro. O que Lacan sentia?

O artista faz aquilo que vê. Pernas abertas ainda corroem o mundo? O espectador sente além do que vê.


E entre as pernas, a nossa origem. Por debaixo dos pelos, bem mais que o rosto, na fenda, os dedos de Courbert tocando a tela, pincelando a vulva, encarando os peitos. Vi demais sobre o quadro, falei mais do que gosto de falar e mesmo assim não disse nada. Queria mesmo parar aqui, sem nada a dizer, não hoje, quero só mostrar, mostro que explico, mas... eu só posso sentir.


Nenhum comentário:

Postar um comentário