Gostaria de tratar meus textos com a mesma leveza que tiro o relógio do pulso para me esquivar das horas, seria estúpida. A hipocrisia não é leve, me disponho ao peso quando maltrato o tempo. Quando meu pulso fica livre, sou sutil e só.
Se por um instante a sanidade fosse minha aliada, entenderia como alguém pode ser feliz ao se propor uma vida prática. Sem o ritual e as surpresas, onde fica a beleza? resta loucura. Mas os loucos são inventivos, há praticidade? Sim, mas também ha liberdade. Ser livre é ser louco? Ser livre é uma questão de prática. Prática de prazeres, os prazeres avulsos e os com hora marcada.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
domingo, 28 de outubro de 2012
Da pasta: Sara
Língua afiada é coisa de idiota; língua bonita é língua na
boca, língua inteligente é língua calada.
' Da pasta: besteira
Escrita e solidão, puta e solidão, paixão e escravidão,
poeta e nada; nada é pior que solidão, melhor seria se fosse escrava.
Não sei nada sobre títulos
Palavras contadas, minguadas, fio por fio.
Palavras poucas, palavras vazias,
Nenhuma palavra.
Acabou.
' Horas arrastadas
Bar, isso, numa mesa de bar. Era tarde com horas lentas
daqueles dias arrastados, estava lá, sentado, charmoso, mal educado, velho,
porco. Entre bebidas, cafés, cigarros e livros, solitário. Você quer saber? Foi
o que de mais bonito vi em minha vida.
Se me atrevi a sentar-me à mesa? Sim.
Fui convidada. Se estive nervosa?! Por favor, fale mais alto, ou melhore o tom
da fala, não consigo te entender. Ah, sim, sim. Não estava nervosa, normalmente
fico em paz quando encontro sombra na escuridão, coisa de poeta, de vagabundo,
coisa minha, de gente cega. Pois não, prosseguirei. Fui admirada por ele.
A
admiração – confesso -, não me deixa envaidecida, seu poder é outro, fico
amedrontada, porque que ali, como posso explicar?! Claro, se estabelece uma
espécie de vínculo entre o admirador e o admirado; sempre tenho a impressão de
que preciso corresponder as expectativas, o que não consigo. Viro estátua, não
faço mais nada. Mas olhe, naquele dia nada disso aconteceu.
Fui sabatinada, foi
bonito, estava livre, era um coração como o meu. Ele chorou, isso me emociona,
ele chorou quando falei de algum Kovisky, penso que
também tenha chorado. Depois ele bebeu, me elogiou e disse que de política não
entendia nada. Eu sorri, abandonei o velho negro no canto, fui embora
desimportante.
Um dia lento, desses que as horas passam arrastadas.
' Zenete
Zenete vinha do interior, de um interior qualquer perdido no
tempo e no mapa. Com uma beleza exagerada de cabelos grandes, boca grande,
olhos grandes, cara marcada. Zenete tinha esperança, esperava fazer a vida como
mulher importante, mulher estudada, mulher elegante, mulher admirada. Zenete
era boba, de uma bobice invejada, acreditava nas palavras, não sabia que
palavras ditas são palavras contadas. Mas Zenete era jovem, jovem inteligente,
desistiu de ser mulher importante, foi ser mulher mudada. Mudou o interior que
tinha, encontrou o que havia perdido, fez de sua vida a marcação do tempo.
Pintou os olhos grandes, soltou seus cabelos, pensou coisas importantes, andava
em más companhias, admiração não tinha, era invejada. Zenete sofria, agora sofria
adulta, sozinha e calada.
' Desacelerada
Desacelerada. Estou assim, sem pressa pra nada, sem gosto
nenhum
Insossa, em paz, em pó, atrás.
Atrás de arranque, de ser arrancada, de uma batida, de ser
montada.
Montada. Estou assim, enfeitada por palavras, palavras em
desordem,
Sem preferências, sem paixão, engoda.
Gorda. Estou assim, gordura e baba; sem beleza, hipócrita,
um nada.
Nada, nada é assim, finito, burro, imundo.
domingo, 9 de setembro de 2012
' O Último entendimento
Estive com ele, mal me lembro; era noite e eu pouco entendia.
Importante? Não, eu estava lá, eu estive com ele. Meu enredo é simples, digamos
que o meu argumento seja o pouco entendimento. De quê? Qualquer coisa, qualquer
situação ou sentimento. O simples entender, ou... O nem querer saber – que seria
melhor (ao menos mais honesto). Enfim, repito: eu estive com ele.
Numa noite pouco pura, meio clara, meio escura, decidi que
sairia e que por menos e mais modesta, abandonaria meu espírito imundo,
sofrido. Me poria em sacrifício, fosse o que fosse. Em detalhes me planejei para
este dia: depois de um banho rápido,
desprovido de pensamentos, me vestiria. Roupas novas e talvez bonitas – o menos
provável seria a beleza – calçaria chinelos leves, usaria cabelos soltos. Canibal,
comeria minhas unhas, estaria nervosa, de algum modo eu o encontraria. Pouco
perfume e olhos pesados, seguiria até o térreo, abriria o portão, desceria rua
abaixo, me depararia com uma praça, sentaria no último banco do lado esquerdo,
de frente para o cemitério. Ali esperaria, estaria com ele, sei que me encontraria.
Assim fiz, senhor velho. Com licença, depois de uma pequena pausa continuarei
minha história. Antes me conte, há em tuas lembranças um olhar mais triste que
o meu?
Pronto. Fiz exatamente como havia planejado, sozinha no
banco fiquei sentada por algum tempo, 3 horas para ser justa. Era ele, o
escritor desconhecido (fisicamente, claro), meu pertence mais íntimo. Durante
17 anos esperei por seu afago, ele foi ao meu encontro. Ah, Senhor Velho, tenho
certeza de que nada além de nós dois existiu no mundo naquele momento, naquele
singelo tempo, foi ali, bem ali o princípio do entendimento: é só para o amor
que o coração existe.
No início eu disse que pouco me lembrava, era mentira. Penso
todos os dias no tempo em que fui querida, é... Eu fui.
Você começa a entender Senhor, porque não posso me alegrar? Seus
olhos caídos eram uma espécie de liberdade onde eu podia dançar sozinha num
espetáculo em que ele me aplaudia, era minha platéia, quando eu cantava, era
uma poeta desesperançosa, ele ria, me achava sutil. Vítima do arrebol sedutor:
a luz de seus cabelos no brilho da pele. Havia mesmo tanta beleza assim? Ora,
este é o segundo entendimento: nossos sentidos foram criados para a
extravagância do outro. Havia nele a perfeição.
Hoje, olhe pra mim. Por onde anda a leveza, a poesia, Senhor
Velho? Eu me lembro de ti. E tu, do que ainda gosta em mim? É esse peso que
hoje te alegra? Ainda sou tua, querido. Me encontre, há tempo. Não peço a tua
compreensão.
Por aqui, sem um final desejado, quiçá sem muito fôlego.
Termino meu texto. Sem desdizer nada que disse no começo, o argumento seria o
de não entender, o que pra mim seria honesto. Este é o último entendimento.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
' Disciplina, pequena!
Disciplina, pequena; é disso que você precisa! Esta é minha
ladainha diária, horária, segundo após segundo. “Eu preciso de disciplina, eu
preciso de disciplina”, mas qual? Dentre tantos afazeres me disponho a fazer
todos, acordar cedo – é... (risos), tomar baninho, café da manhã, colocar meus
livros a postos e começar minha dedicada viagem aos labirintos do Direito, por
suas vias mais obscuras. Eu começo, eu leio, eu estudo, eu entendo, até aplico
e é gostoso. Mas então... olho para o lado, vejo meus livros favoritos, sinto
Cecília Meireles me chamando para entender sua crônicas, Esopo para que
compreenda a moral das fábulas, Machado de Assis para que não me desanime com a
vida, Dostoiévski, o homem que é meu outro lado. Então... Adeus disciplina! Me
rendo, vou para uma diversão diferente, vou para o pouco compromisso com a
realidade, vou para o que é meu. Me desarmo, aí depois vem a agonia: Tenho
estudo de caso para entregar daqui a pouco! Deus, Direito Civil! E agora? E
agora? Bem, ainda tenho meia hora, vamos ver, vamos ver... dá tempo, leio e
respondo. E o tempo? Deu tempo, mas e o atraso? Há tempo. Eu e o relógio não
nos damos, chego atrasada. Entrego o trabalho poucos instantes antes do término
da aula. Mas quer saber? Eu cumpri o que me propus muito antes da disciplina,
eu prometi a mim mesma: o que me fizer feliz. Aprendo o que deveria, me divirto
com o que gosto, e depois... ando lentamente pelas ruas do centro de Caxias
ouvindo Zaz e me desenrolando no francês. Se o trabalho sempre for recebido, me
contento; dever cumprido.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
' Canção de meu coração morto
Tenho sofrido durante anos, por todas as lembranças,
com o peso de minha indeterminação
e a força da desesperança.
Cá pra dentro há quem diga que eu deveria ser decidida
pela decisão de obedecer.
Por outro lado, há quem clame que a liberdade de um homem
é o carma a qual deve padecer.
Por menos tenho morrido, lamentado e murmurado
é o infortúnio do meu fado, o poder em minhas mãos
é sensível a dor do ar - e as feridas
em meus lábios
___Disto não gosto de falar
Essa minha canção tão ardilosa, simples e indelicada
vem de minh'alma mal amada e do peito tentador
são as dores de meu parto, meu triste coração morto
___Tão infame em meus versos e poeta em meus sopros.
com o peso de minha indeterminação
e a força da desesperança.
Cá pra dentro há quem diga que eu deveria ser decidida
pela decisão de obedecer.
Por outro lado, há quem clame que a liberdade de um homem
é o carma a qual deve padecer.
Por menos tenho morrido, lamentado e murmurado
é o infortúnio do meu fado, o poder em minhas mãos
é sensível a dor do ar - e as feridas
em meus lábios
___Disto não gosto de falar
Essa minha canção tão ardilosa, simples e indelicada
vem de minh'alma mal amada e do peito tentador
são as dores de meu parto, meu triste coração morto
___Tão infame em meus versos e poeta em meus sopros.
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
' Meu amor
Quando te vejo assim zangado
perco o ar, amor,
dou gargalhadas sozinha.
Penso em teu bico encabulado
e me alegro em tuas desgraças,
sinto prazer por teu escárnio, tua dor
é uma vingança íntima
você morre assim pra mim, amor.
Essa maldade é minha alma
que é tua em sombra e sol
sou em bico tua musa,
tua santa, teu flambol.
Amor...
Minhas mãos te cobrem em palmas
no meu rito desconhecido
no calor do velaneio
Um abraço e te esgano, derramo.
Me esclareço e te beijo.
Meu amor.
perco o ar, amor,
dou gargalhadas sozinha.
Penso em teu bico encabulado
e me alegro em tuas desgraças,
sinto prazer por teu escárnio, tua dor
é uma vingança íntima
você morre assim pra mim, amor.
Essa maldade é minha alma
que é tua em sombra e sol
sou em bico tua musa,
tua santa, teu flambol.
Amor...
Minhas mãos te cobrem em palmas
no meu rito desconhecido
no calor do velaneio
Um abraço e te esgano, derramo.
Me esclareço e te beijo.
Meu amor.
' Estou velha e sei
Dizer que estou velha e sei, seria bom
Mas não é, nem será.
Eu vou dar um jeito de voltar
de ficar escondida no passado
não no meu, no de alguém que
que tenha amado pouco
ou quase nada, desse amor que eu amo
e que a mim não trata.
Dizer que sou criança e sei, seria bom
mas não é, nem será
porque nem sequer há pureza,
beleza ou coisa assim.
Se eu voltar, ainda serei adulta
pequena e bruta, dessas que Chico Buarque canta
se eu voltar porque fui, serei outra
serei insossa.
Sem quase nada que seja bom
Porque mesmo escondida, hei de voltar ferida
E cuidarei de ter rancor.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
' Desabafo da madrugada
Vez ou outra aparece em meu facebook a notifiação, ou
melhor, uma lista de aniversariantes – deve acontecer o mesmo em milhões de
face’s. Porém, esse tipo de situação, é a situação que me paralisa, me estanca
me deixa tensa... Assim bem simples: eu não sei o que desejar, eu não sei se
devo desejar algo, eu não entendo em que a minha manifestação pública contribuirá
na vida do aniversariante. As pessoas normalmente não gostam de mim, então
porque gostariam que lhes parabenizasse?! Han?! Seria só o ego?! Meu ou dela?!
Mas e então? Eu me rendo; afinal de contas nem tudo é poesia. O problema não
está nelas, em absoluto. O problema sou eu, eu e meus pequenos significados e
minhas monstras conclusões, eu quase sempre acabo concluindo que “felicidades”
é o melhor que posso desejar (o melhor pra ela porque sou cristã), mas ao mesmo
tempo me sinto imunda por desejar algo em que não acredito, porque quase como
cola, eu grudo a palavra que me destrói e que fecha o ciclo de hostilidade
humana em mim, eu declaro – discretamente: felicidades infinitas. Não, eu não
posso fazer isso! Mas... Normalmente chocaria se dissesse: Você anda mal, mais
próximo da morte, sua vida me interessa e me entristece também. Olha, o que de fato posso lhe desejar
e ainda com peso no coração, seria “segundos de alegria”. O que me deixaria feliz por um instante, porque é assim que acontece assim eu desejaria. Desculpe, as vezes falo bobagem.
Esse é o tipo de post que dá ressaca na manhã seguinte, daqui a pouco eu vou olhar, talvez delete e, antes, quando ainda estiver lendo, na metade desse meu texto mal redigido, eu sentirei vergonha, vergonha de mim, porque minha vontade de apagar é mais forte que minha vergonha de pensar, eu vou dizer baixinho: - Deus, quanta hipocrisia!
Esse é o tipo de post que dá ressaca na manhã seguinte, daqui a pouco eu vou olhar, talvez delete e, antes, quando ainda estiver lendo, na metade desse meu texto mal redigido, eu sentirei vergonha, vergonha de mim, porque minha vontade de apagar é mais forte que minha vergonha de pensar, eu vou dizer baixinho: - Deus, quanta hipocrisia!
sexta-feira, 20 de julho de 2012
' Olhando pra você
É que tem dias que meio escondida, coisa de criança
Eu paro e fico mesmo assim: olhando pra você
Bem desse jeito assim: descobrindo você.
É que nesses dias eu paro e grito, escondido de nós
Que eu desejava alguém assim, bem desse jeito assim
Então eu pego e fico: olhando pra você
Não de outro jeito, só assim: me descobrindo em você
Me cubro de você
Me cubro de você
Exatamente assim, bem desse jeito assim: olhando pra você.
' Ando assim meio perdida
Eu só procuro o mar quando não posso te alcançar
O meu mar é escondido, só encontro no sofrimento
O meu mar, senhor amor, é uma solidão meio medonha
Dessas coisas que a gente sonha para tirar em dias ruins
Só pra chorar meio escondido e aliviar o coração.
Esses versos e o meu mar são pobres em sofisticação
Mas é mesmo assim que eu sinto, numa indelicada indecisão:
Se o mar é coisa minha, porque quem manda é a solidão?
Fico cá meio perdida, perturbada e ofendida
Pelo fim de meu poema sem uma boa conclusão.
O meu mar é escondido, só encontro no sofrimento
O meu mar, senhor amor, é uma solidão meio medonha
Dessas coisas que a gente sonha para tirar em dias ruins
Só pra chorar meio escondido e aliviar o coração.
Esses versos e o meu mar são pobres em sofisticação
Mas é mesmo assim que eu sinto, numa indelicada indecisão:
Se o mar é coisa minha, porque quem manda é a solidão?
Fico cá meio perdida, perturbada e ofendida
Pelo fim de meu poema sem uma boa conclusão.
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