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quarta-feira, 17 de abril de 2013

Sobre Anne Sexton e eu

Bom dia! Bom dia cheio de febre, garganta inflamada, bom dia.
Bom dia, poesia, bom dia.

Estou feliz porque hoje quem me visitou o peito foi a Anne Sexton, como me anima quando me encontra, como me preenche o dia. 

Anne não é tão conhecida no Brasil, não se tem um fácil acesso à sua bibliografia, poucos são os poemas traduzidos, mas não se precisa de poemas infindos, ao lado de Anne basta o sussurro da frase, o afago do ritmo, basta saber que ela escreveu um dia, basta ler um fragmento tendo certeza de que ela fechava os olhos, tomava seus remédio e os escrevia - minha livre ilustração - ou não, pensar que escreveu indelicada, desafiada, inibida, vulgar, nua... não sei, me confundo toda ao pensar em Anne, minha Anne...

Já fiquei horas repetindo Tudo em mim é um pássaro, Tudo em mim é um pássaro, Tudo em mim é um pássaro. Tudo em mim é latente, tudo em mim é febril, tudo em mim é inseguro, tudo em mim é de todo uma certeza, tudo em mim voa, tudo em mim, tudo em mim, tudo em mim é um pássaro. 

Doce peso em celebração da mulher que sou.

Não canto uma nota sequer posto que tudo em mim é um pássaro, tudo em mim é grito, tudo está em silêncio, tudo em mim se vai, vai e volta... tudo em mim é um pássaro.

Não gostaria de ter estado com Anne, nos unimos porque estou aqui, se me escolheu foi mesmo porque a escolhi.

Um pouco de nós:


EM CELEBRAÇÃO DO MEU ÚTERO 

Tudo em mim é um pássaro.
Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.
Diziam que estavas incomensuravelmente vazio
mas não estás.
Diziam que estavas doente prestes a morrer
mas estavam errados.
Cantas como uma colegial
Tu não estás desfeito.

Doce peso,
em celebração da mulher que sou
e da alma da mulher que sou
e da criatura central e do seu prazer
canto para ti. Atrevo-me a viver.
Olá, espírito. Olá, taça.
Fixar, cobrir. Cobre o que contém.
Olá, terra dos campos.
Bem-vindas, raízes.
(...)
Doce peso
em celebração da mulher que sou
deixa-me levar uma echarpe de três metros,
deixa-me tocar o tambor pelas que têm dezanove anos,
deixa-me levar taças para oferecer
(se é isso o que me toca).
deixa-me estudar o tecido cardiovascular,
deixa-me calcular a distância angular dos meteoros,
deixa-me chupar o pecíolo das flores
(se é isso o que me toca).
Deixa-me imitar certas figuras tribais
(se é isso o que me toca).
Pois o corpo preciso disso,
que me deixes cantar
para a ceia,
para o beijo,
para a correcta
afirmação.


Tradução de Jorge Sousa Braga.

Um vídeo, não me pergunte quantas vezes vi, será mais um de nossos segredos. Fale com Anne.


segunda-feira, 15 de abril de 2013

A vergonha e a dor



Hoje. Agora, senti uma vergonha agoniada, uma vergonha que angustia o corpo, deixa os goles de água amargos, e o rosto sem vontade de se repetir; a vergonha pari a angústia e a angústia me humilha.

Fico aqui, entre o chão e uma cova, desejando caber em qualquer caixa de sapato antigo, de sapato esquecido, ficar na companhia dos velhos, empoeirados, eu e meu par, em silêncio. O silêncio faz a vergonha gritar.

Quando estou envergonhada, uivo, às vezes baixo, outras... Num lamento que espanta os céus! Eu uivo me rasgando, pedindo socorro ao meu passado, clamo por piedade, por alguns minutos antes do consumado, antes do suplício, antes do mau estado.  Eu agora estou grunhindo, sou um cão, uma cadela sem cria, sem par, sem orgulho.

Me lembrei das primeiras letras de minha vida, das primeiras leituras, lia os segredos de meu pai, segurava a alma de um escritor, e ele, pobre pai, acreditava na minha inocência.

Eu lia o que meu pai esquecia, lia suas cartas, suas canções, suas poesias, histórias... Eu lia, eu relia, eu me via. Meu pai é meu, o Édipo que me esqueça.

Me envergonho por saber demais, os pais tem que ser mistério, tem que ser repetição, o meu pai é meu livro aberto, sou nele tudo o que não sei de mim, me reparo em cada gesto seu, eu sorrio o seu sorriso e atrepo minhas penas para almoçar. Pai, eu prometo cantar mais, cantar no banheiro e fingir que o senhor não se demora no quarto só para me escutar.

Não é justo, não é justo tanta curiosidade e displicência de uma pequena, mas preste atenção, eu esperava meus pais se afastarem. Quando via meu pai arrumando uma geladeira, e minha mãe cuidando nas louças, era minha hora, era minha degustação, melhor que qualquer pedaço de melancia gelado, melhor que abacate com banana, ou culto de domingo de manhã.

Tinha meu ritual sagrado, era uma questão de louvor a mim, um brinde a nós: criança e segredo de velho, ao silêncio e paz que me acompanham, ou não.

Apanhava seus caderninhos na última gaveta da cômoda, despejava tudo no chão, entre minhas pernas e os pés da cama, quase que valsávamos.  Quem foi meu pai em 79, em São Paulo? Quem descobria meu pai antes de mim?

Junto a seu tesouro tinhas as fotos, essas eu nunca tratei de desvendar, as fotos antigos foram feitas para os sonhos, a gente olha, se encara e desvia o olhar. Guarda o que não precisou ser dito e dispensa qualquer poesia que venha delas, é assim comigo, o retrato antigo foi feito para adorar.

Olhava tudo e ficava atenta, qualquer movimento e tudo estava acabado.

Entendeu a minha vergonha? Tudo bem, eu lhe digo, papai deixava o seu espírito dedilhado em papéis, tudo arquitetado, o pai se deixava ser escritor só pra eu olhar.

Mas o pior, agora estou agarrada ao chão.

Eu lia, tudo lia, lia o diário do ajudante de meu pai, o senhor que morou com índios, lia o que o compadre escrevia, sem querer me segredar, lia tudo em voz alta. E por ser subordinado a meu pai, se deixava envergonhar.

Nunca mais quero ver ninguém, joguem ácido sobre meus olhos, que o ácido queime e que morra sem olhar, não se grita o que o poeta não deseja falar.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O delírio

Mesmo tendo em mim um turbilhão de timidez, escrevo. Não escrevo como gostaria, mas deixo meus muuuuitos caderninhos e diários e agendas e bloquinhos e papeizinhos bobos e paredes e quadros e espelhos, deixo tudo rabiscado, tudo é relembrado. Sabe o nome de minha mania? mapeação da alma.

É o desejo que sinto por mim.

Gosto de ver os meus pedaços, minha caricatura espalhada, talvez sejam mesmo os meus cacos, uno minhas charadas, me venço, me avesso e me desconheço.

No meu romance, sou meu par.

É como quem se encara nu, sentindo tesão e repulsa por si, é saber o que o espelho não diz, é sentir vergonha do quanto se acha molhada.

Mas eu confesso, gosto de estar assim, tenho a rotina de encontro e desencontros com o ontem, o hoje e o que nunca existiu, comigo ou com qualquer situação que eu tenha criado, tenho olhos as vistas, cara a cara com quem me quer ver.

Tenho a beleza de um amor que dura, esse mesmo narcisista, com língua na minha língua, mãos sobre meus peitos, todos os dias debruçada sobre mim.

Ele tocou no meu silêncio

Eu tenho um silêncio que tudo fala por mim,
e no silêncio, eu sou o que falta,
que me cala e basta,
me toca e afaga,
me tranca a boca
porque poeta que fala, trava, estanca e mata
e o bom poema
se perde no
fim.


xxxx

sábado, 23 de março de 2013

Da tarde


Tenho amaldiçoado todas as companhias. Os sons me aborrecem e a alegria me causa enjôo. Tenho sido desprezado por Deus que não se compadece com a minha dor, que leva a cada um dos meus poucos olhos infantis para junto de um inferno, de outro inferno que não este sobre qual eu vivo.

Tenho sido mentiroso, eu menti a cada palavra que anteriormente disse, menti, minto e a tudo desdigo. Santa desgraça é a falta de caráter de um escritor, bem podia eu me enforcar agora, mas não... bendita seja a covardia de um poeta, apodreço na minha vaidade, e por pior que seja, não suportaria viver noutra vida, a menos que fosse uma vida diferente da minha, veja, mais uma vez me desdisse. 

Crês em mim ainda? Continua a ler bobagens? Pois saibas que és pior que eu. Que se, por artimanha do diabo, te visse na rua, cuspiria a teus pés, amaldiçoaria a minha sorte e logo após sair da calçada, te esqueceria.

Pense você, estar por um instante ao meu lado, seria a maior de tuas vantagens.Não somos parecidos? Eu escrevo o que detesto e você deseja ser eu.

Passou um pouco da minha alucinação, desejo falar sobre... não sei o que desejo falar... já que sou eu quem conduz a conversa, vamos tratar dos vermes, em como comemos uns aos outros enquanto nos olhamos, em como fazemo-nos mal, no quanto parasitamos, viu? Continuo na mesma história, ainda é a relação escritor/leitor, a mesma que agora repudias. Não diga que não, te odiaria mais ainda.

quinta-feira, 21 de março de 2013

A boca, só a boca

O que me encanta na boca dos outros? era a pergunta imbecil que não saia da minha cabeça enquanto lavava meu rosto. Fiquei diante da pia, em frente ao espelho durante um tempinho... o que me encanta? A boca é um presente, me sugeria, e seu fado é o prazer, concluí. Mas e o sorriso, é presente para a boca, ou da boca é o carinho?

Este é o momento em que você deve dizer: quanta idiotice, pensamento sem magia! E eu lhes digo, é mesmo e tão somente é.

A boca foi feita para o encanto, o encontro, a lascívia, os prazeres, a boca tem que ser roubada, a boca do roubo é boca dada.

A boca é o segredo, o escondido, o íntimo, o pecado particular.

A boca é o céu da língua, a umidade que aquece o fogo.

A boca é desenho, é o sal, é o sulco, o doce.

A boca é o rito da demência, feita para os sustos, a vulva, desenhada para o amparo.

A boca é o desafio da alma, é quem acalma, quem come, movimenta e lambe.

A boa é o final.

E para a boca, o vulgar, a fantasia, os cheiros, os sucos que só deus quem sabe.

Na boca, a virgindade, o selo, o pau.

Besteira é ficar sem se esfregar numa boca.

Pronto, agora que os dentes estão escovados, monitoria de Penal.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Hein...


As primeiras perguntas do primeiro diálogo do primeiro encontro:

Quantas vezes por dia você chora?
Quantas vezes você chora?
Você chora todo dia?
Você chora de dia ou de noite?
Me responde,
Você chora?

E com emoção - bem mais que a minha - me agarrou por entre o peito,
acariciou meu cabelo, sorriu.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Se convidar, eu canto

E se falarmos sobre cantar? Aí eu fico ainda mais feliz. Sim, eu canto contando meus passos enquanto ando pela rua, eu canto igual uma doidinha, canto mesmo, canto só... canto pra mim, eu canto e assobio.

Eu canto com toda a minha preguiça de sair, eu canto assustando quem ousa me olhar mexendo os lábios, eu canto sorrindo e batendo os dedos na bolsa, na perna, depende do timbre que desejo alcançar.

Eu canto desde criancinha, não, na verdade eu assobiava, e assobiava muito, minha mãe vivia brigando - Menina, deixa de ser doida! - minha mãe ainda briga (dizendo a mesma coisa).

Eu canto, canto a segunda voz para meu pai, ele lá no mato e eu, aqui.

Eu canto e depois não sei mais cantar.

Eu canto esperando meus aplausos, eu aplaudo porque sou eu sozinha no palco.

Eu canto escrevendo, agora, por exemplo, estou cantando, canto Renato Godá.

Eu canto, busco qualquer música do Sérgio Sampaio e faço um lamento, tem dias que venho lá de Portugal cantando... Outras vezes sou a companhia de palco de Maria Rita, eu juro que sou eu a sombra depois da bateria fazendo a voz saltar.

Eu canto com Zaz todos os dias, é bem verdade que eu acordo cantando, mas se canto, danço, de cintura solta no banho, escorregando e rebolando.

Eu canto para me seduzir, eu seduzi olhos cegos enquanto falava cantando.

Eu canto o sofrimento, o sofrimento por todas as dores, é uma chatice ter um esqueleto que também gosta de cantar.

Se quiser me convidar para um show, eu vou lá e canto... mesmo que ninguém me ouça cantar.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Amanheceu

Mas se você acordasse, amor
eu te daria as horas
eu te daria as horas
de quem nunca viveu.

Antes que acordasse, amor
eu te daria botões
das rosas os botões
um perfume só teu.

Deixa de dengo e acorda, amor,
vem beijar quem sofreu,
com beijos de preguiça, nega...

Abre os olhos pra ver,
mais um sorriso
o dia é o segredo.

Amanheceu.

Bestinha que doi

Será normal que a cada passo que eu dou
sentir o aperto que o passado cometeu?

Seria crime se ao pensar em te matar
o futuro se esquecesse de chegar?

                 Quem tanto acusa esse velho peito
                  meu?

Três versinho mal contados pra amanhã,
                 ou depois,
                       talvez.

Veja, menino

Veja que não me canso de falar em nós dois
Vejo o quanto é manso ao lembrar como foi
Meus olhos nos teus, cabelos ao ar
No escuro. minha noite, senti teu vulto chegar.

Huuuuum...

Veja que não me canso de cantar pra nós dois
Veja só, menino, o futuro já foi.

Nós dois por lá, depois de uma história,
o conto de quem lembrava do amor.

Ah neguinho, teu colo é meu
Olha só, menino, esse colo é meu
Ah menino, teu colo é meu

                          Teu colo é meu
                          Teu colo é meu
                          Teu colo é meu


sábado, 16 de fevereiro de 2013

Sobressalto de Sara

Hoje é um dia bonito, feito para um quarto escuro e vários filmes! Bem, o motivo deste post é meio que uma, como posso dizer (haha), já sei! Uma nota de esclarecimento, é... uma coisa tem me incomodado nos últimos dias, como uma coceirinha na palma da mão, sabe?!

Nessa semana, duas moças na faculdade me perguntaram sobre o blog - como sempre, me assustei, penso que as estatísticas vêm de um erro na pesquisa - quiseram saber sobre a criação, achei tão bonito como falavam, chegaram até mim com tamanha intimidade que, poxa... essa é a onda da minha alma, ter textos livres, nem sei se essa é a forma certa de dizer, mas tê-los entendidos pela gesto de um sonho, de uma viagem de mente, aquelas coisas que o coração só consegue falar com a alma (?!)... mais ou menos assim, bem, o que importa é que foi com  intimidade que falamos, que tratamos de algo nosso; ali, enquanto conversávamos - ela, mais eufórica que eu - notei o quanto a surpreendia o fato de eu ser como sou - ou como estava -, ela esperava uma Sara dona do espaço, quiçá mais afetada, é... esperam de mim mais afetação, ser uma nerdzinha vaidosa com as feridinhas no rosto não é uma imagem que rodeia muito o imaginário de quem me lê (hehe).

O negócio é que, ela me falava sobre trechos meus que eu nem  me lembrava ter escrito, me perguntava como surgiram, algumas vezes dizia quando ele te machucou. Oh, o velho susto! Eu quis, com simplicidade dizer a ela que ninguém havia me machucado, não daquela forma, não àquela forma; que tudo fazia parte de traços em mim, tem horas que olho pela janela, vejo a moça desolada na praça e, começo a fabular, a pensar nela como minha, ter o peito dela no meu, aí flui a nossa conversa, é um papo de encontro sem presença. Não tem a ver com a minha vida, não com o que toquei de fato - não digo realidade porque o que fantasio também é real - pensei que depois de falar essas coisas para a moça de cabelo cheio de brilho, seus olhos fugiriam  da minha atenção, mas não, ela simplesmente falou sobre Bia. E Bia, todos sabem, é minha explicação favorita.

Eu percebi que tinha uma dívida com quem me lê, tenho que explicar um pouquinho acerca de uma coisinhas, a começar por Bia, minha Beatriz, a menina que tanto aparece por aqui.  Ela é a parte de mim que é livre para as aventuras, é solta para um mundo que eu desconheço, ela aos poucos vem me dizer o que quer, de vez em quando ela clareia minha mente, ela me segreda alguma coisa que por lá, lá bem longe, viveu. Esta é Bia, essa sou eu.

Outro negócio importante, alimento o blog com os textos mais soltos que tenho, porque tenho aqueles que crio, que cuido comigo, entende?! Os que estou guardando, juntando para quem sabe uma impressão?! Háaaa! Um livro, umas crônicas... é... quem sabe. Vou aprimorar o pouquinho que sei. Por exemplo, vários textos que tenho aqui no blog, finalizo no caderninho, enrolo e desenrolo por lá... Vou trazer pra cá.

O mais importante é que, eu sou o que escrevo, não sendo eu no que falo, de que, quando risco, risco parte do quem desconheço, do que sinto atravessando...

O Cena 1, veio depois de um filme francês, que ficou grudado na minha cabeça a um quadrinho que havia lido antes de assistir... É assim que acontece, quando trato da mulher de franja que não quer envelhecer, sempre tenho uma imagem feita por Kundera em A Valsa dos Adeuses; em certo ponto do livro, ele narra a vida de uma estéril, fiz a imagem dela assim no pensamento, sofrida e com franja. Os versinhos de Bailarinas n'agua, são meus por inteiro, eu cuspi gesto por gesto, eu estava com elas, eu vi as meninas nuas, tinha por companhia Kundera  - A Insustentável Leveza do Ser - na beira da lagoa...

Sobre as canções,  nelas tenho meus retratos, lá... tudo bem pensado, cada harmonia bem demarcada, cada palavra dedicada. É um jeito gostoso de fazer amor, ao ritmo de si, nada mais. E sim, a coisa primorosa é Ele, que também é meu pai, meu filho, meu mestre, meu encontro, meu mistério. Ele, que veio a mim puro, igual ao ouro que eu derreto, sem machucados, curado, livre, que amou para aprender a me amar, que descreu para aprender a crer, que sofreu para estar em mim com alegria.

Sobre isso é bom falar, estávamos lá, olhando o que havíamos vivido e sendo gratos, gratos ao passado que nos ensinou, piedosos ao que havia se tornado, e como disse - uma vez e não mais -: a frustração afeta e apodrece. Mas há esperança aos que foram. Nós, dançamos para nossos pais.

É, é mais ou menos isso... preciso descer e comprar alguma coisa p comer.


sábado, 2 de fevereiro de 2013

Retrato em marfim


A intimidade pediu silêncio, pediu um tempo, uma canção, uma poesia.
A intimidade pediu um grito, unhas ferindo, uns gemidos.
A intimidade pediu suor, saliva, lascívia, curva.
A intimidade pediu janela, entre as pernas,
à parte, leves, apertando.
A intimidade pediu
Olhos grudados
Pra cima, no
Céu.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A morte eu comia


Durmo com a morte, 
a cama
Meus pés cheios de ferida
Comidos, secos, cara a cara com
O chão
que é cama, quente, fria
Sem assunto, como a morte.
De quatro, esguia, lambendo
sua virilha,
quente, fria, cara a cara com
O chão
que é cama, gemia, matava
morria.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

À noite

                                                               
                                                                                                                         Ao Sapeca, amor.


Não, nada importa, a solidão, o desassossego,
nem a paz, nem os medos.

À tarde, só, começo meus dramas.

Ser estúpida com as pernas
enroscadas em meu egoísmo burguês,
é minha pobreza, meu mal.
Não desejo música, nem vida,
por nada me aventuraria.
Aqui, meu espírito mal feito.

À tarde, só, começo meus dramas.

Ao amor, pouca atenção, sorriso desatento.
Meus dedos, loucos, em milagre se afogam
na fenda, fundidos, no banho. Embaixo,
lá estão os mortos, meus, todos feridos.

À tarde, só, começo meus dramas.

Tenho a manha na barriga infecunda
nem mulher, nem anjo, nem homem
nem demônio.

O cachorro morreu.

À noite, só, enterrada nos dramas.