Querido, a tua mão escolheu a minha. Minha paz escolheu teu peito. Meus ouvidos, tua guitarra. Minha pele, a tua poesia. E não há nada em mim que não pertença a tua fantasia.
Quando, na varanda, esquecemos o passado, fomos abençoados com a púrpura dos céus, a chuva nos batizou e só soubemos sorrir. Lembra que te abandonei? Lembra o que fez? A guitarra contou nosso segredo para o teu público.
Só queria ser uma espécie de amigo, você chorava no palco. Eu? Só soube fugir para além de tuas mãos, para a segurança da solidão. Eu? eu era Prince, eu era som, eu era o teu choro.
.
E todos os dias dedicava a tua paciência a minha infância, cuidava de mim como um ourives cuida da safira ao fogo. Provou da minha teimosia, foi anjo que aceitou todas as minhas enfermidades, chorava comigo nas crises, amansava as dores.
Gritou comigo: resolva seu egoísmo, você é muito pequena pra isso! Eu quis te matar sabia, amor?
Você entendia que o amor quando trata, trata para deixar livre, deixar livre quem é selvagem. Você me prendeu com a ousadia de quem sabe voar.
Somos a excelência de Guitar Battle brindando a Purple Rain.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Lilian
Quando a noite chegou, me senti liberta. Com o ritual de amor próprio que há pouco havia aprendido, arranquei o velho vestido preto decotado do armário, a lingerie mais cara me tocava, de meias três quarto e batom vermelho, me admirei no espelho, era uma perfeita viúva desregrada. Ele, deitado no sofá da sala, assistia uma coisa qualquer, o que lhe servisse melhor que eu.
Enquanto encarava minha decisão frente ao espelho, chorava, doía, mas o choro é amansador. A hora perfeita era aquela, peguei meu celular, minha bolsa, chequei a carteira, revirei meus documentos; me sentei de novo na cama, chorei. Levantei, ainda com soluços discretos, me perfumei. Fui a sala, beijei Arthur na testa, disse adeus. Ele, atordoado, me encarou enraivecido, num só golpe se levantou do sofá e me tirou de frente da TV.
Enquanto encarava minha decisão frente ao espelho, chorava, doía, mas o choro é amansador. A hora perfeita era aquela, peguei meu celular, minha bolsa, chequei a carteira, revirei meus documentos; me sentei de novo na cama, chorei. Levantei, ainda com soluços discretos, me perfumei. Fui a sala, beijei Arthur na testa, disse adeus. Ele, atordoado, me encarou enraivecido, num só golpe se levantou do sofá e me tirou de frente da TV.
A paixão é assustadora
Às vezes fico me beliscando, tapeando pra ver se ainda estou aqui, se ainda existo.
Que coisa louca esse negócio de a outra pessoa ocupar todo o espaço que existe em você, pior ainda é que vai além, vai além de seu próprio corpo; ele fica lá, na cadeira da varanda, no livro de Sociologia, na mesa, no birô, na torneira da cozinha. E, ainda, nos trejeitos alheios, nos rostos estranhos na rua, nas atendentes infelizes do Paraíba. Você se assusta de sobressalto porque, essa loucura de espaços ocupados é o que te deixa feliz, é o que te dá segurança, é a forma mais delicada de ser palhaça, de ser boba.
Como pode?! Só estando louca. Ah, tem dias que dá vontade até de apertar a campainha só pra sentir aquele friozinho na barriga, ouvir barulho, é o barulhinho sinfônico da chegada dele, é o sinal: agora ele ocupa só o meu abraço.
Que coisa louca esse negócio de a outra pessoa ocupar todo o espaço que existe em você, pior ainda é que vai além, vai além de seu próprio corpo; ele fica lá, na cadeira da varanda, no livro de Sociologia, na mesa, no birô, na torneira da cozinha. E, ainda, nos trejeitos alheios, nos rostos estranhos na rua, nas atendentes infelizes do Paraíba. Você se assusta de sobressalto porque, essa loucura de espaços ocupados é o que te deixa feliz, é o que te dá segurança, é a forma mais delicada de ser palhaça, de ser boba.
Como pode?! Só estando louca. Ah, tem dias que dá vontade até de apertar a campainha só pra sentir aquele friozinho na barriga, ouvir barulho, é o barulhinho sinfônico da chegada dele, é o sinal: agora ele ocupa só o meu abraço.
Um tanto de Sara
Você sabe aqueles tempos em que a fantasia é mais lúcida que
qualquer outra coisa em você? Que tu andas por aí como se dançasse ciranda? Que
olha para dentro dos Correios com dó dos atendentes sentenciados a não sorrir?
Sabe essas coisas? Pois é... Estou na fase mágica da maturidade.
Percebe que minha maturidade está a um passo da infância?
Ainda semana passada planejei me comportar como adulta,
vestir roupas um tantinho mais longas, ir pra academia retardar a menopausa,
economizar dinheiro sujo pra comprar um carrinho, um casebre, planejar meu escritório.
Imaginei o tempo em que cogitaria a idéia de fazer franjinha
e chorar por não ter mais vinte anos. Me vi longe, lá no futuro... Numa época
em que hoje é a fase feliz.
Lá onde eu me via, não enxerga um tempo largo. Não me vi
cantando na sala, nem tinha violino ou violão detrás da porta. Nem as graças do
amor devoto.
Minhas plantinhas não estavam no peitoril das janelas...
Eu imaginei tudo isso meio embaralhado. No fim do dia ao
relembrar as frescuras, sorri. Devaneios insensatos.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
O Vendedor de livros
Januy vendia o que não podia comprar
comprava o que não podia fazer
escrevia o que podia vender.
comprava o que não podia fazer
escrevia o que podia vender.
sábado, 17 de novembro de 2012
Silêncio
Estive ontem na casa de dona Doura, senhora distinta, dada
por muitos como louca – o que não me causa incômodo. De alguma forma senti que
deveria conversar com ela para me entender um pouco mais; uma velha, pobre,
louca, suja e reclusa numa casa de taipa no meio da caatinga, seria meu melhor
analista.
Deixa eu dizer como tudo aconteceu; enquanto passava férias
na minha cidadezinha, visitei vários povoados com o meu pai, em busca de ração
para o gado, desfazendo as ordens de Deus e tentando não deixar nossas crias
morrerem. Deus olha a morte e sorri.
Ouvia rumores da morte de um velho vaqueiro, que fora
assassinado por um vizinho que sabia que no chão, embaixo do tamborete da mesa
da cozinha, encostado a parede ao lado do fogão, enterrada estava uma pequena
fortuna, da venda do gado de leite; nada mais que cinco mil torrões.
Sempre que alguém narrava a história triste da viúva
sofredora que gritava vendo seu marido morto no beiço da porta com as tripas espalhadas
pelo terreiro, me causava arrepio, um arrepio de desconfiança, de quem sabe quando
uma história tem fim.
Por acaso ou destino, ou só a velha me chamando, ontem de manhã
fui parar na palhoça da Doura, melhor dizendo, debaixo do cajueiro, na porta da
casa dela, sentada no banco de madeira contando as lagartas que se arrastavam
pelo terreiro da velha – lagarta de fogo.
Doura me apareceu na porta, disse que precisava me falar,
entrei na sua casa como desafiante de boteco, mal encarada. Ela me disse:
- Mistério é mistério, o diabo deve saber.
Perguntei do que falava, e ela... me ofereceu tripas de bode
pra comer.
A realeza de Ester
Sempre ficava confusa pela manhã, era como se algo fosse
perdido durante a noite, talvez seja apenas a ressaca de fantasias que a
realidade trazia, mas Ester demorava a se recompor. Durante o banho escrevia
vários poemas, cantarolava novas canções, pensava até em arranjo pra o violino –
o banho se tornava uma extensão dos primeiros sonhos.
Enquanto preparava seu
café, se imaginava morando no campo, conseguia até sentir o cheiro da relva
matinal, fazia de conta que a margarina era manteiga fresca e que o café tinha
sido colhido no quintal. Esquecida de sua vida campestre, esticava seu notebook
na mesa, ao lado, uma torre de livros e começava a estudar; ficava se
imaginando uma mente importante, com grandes responsabilidades quanto ao estudo
social do crime.
A terra de Ester era a mesma terra da infância, com o mesmo
cheiro de água molhada, com as mesmas mãos criando castelos, com a mesma mente
fabulando com pedras, arranjando um destino perdido para alguma flor de feijão
ou pé de goiaba. Ester cresceu, deveria ser mais astuta, pelo menos mais
racional, Deus lhe deu uma mente brilhante, poderia ser destaque intelectual,
mas qual?! Ester é poeta, assim sempre será.
Em qualquer cidade que chegar será saudada pelos súditos que se curvarão na beira da estrada, acenando com uma flor na mão, as crianças nos ombros dos pais, sorrindo e gritando por seu nome.
Em qualquer cidade que chegar será saudada pelos súditos que se curvarão na beira da estrada, acenando com uma flor na mão, as crianças nos ombros dos pais, sorrindo e gritando por seu nome.
Todos
sabem, todos notam a realeza de Ester.
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
O que não puder esquecer
Agora que sou velha, não preciso de tanta bagagem, uma mochila rasgada com o caderno de lembranças e o fardo de memória, já me basta.
Ontem, enquanto dormia, escolhi o que deveria guardar:
Um pedaço de seus cílios longos, para o caso de eu precisar chorar;
Suas rugas douradas, o presente precisa sorrir;
Uma gota de seu perfume, vai que eu queira me inspirar;
Uma fotografia antiga, pra não me lembrar de agora;
E depois, só o que não pudesse esquecer.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
A praticidade como inverso de uma vida prática.
Gostaria de tratar meus textos com a mesma leveza que tiro o relógio do pulso para me esquivar das horas, seria estúpida. A hipocrisia não é leve, me disponho ao peso quando maltrato o tempo. Quando meu pulso fica livre, sou sutil e só.
Se por um instante a sanidade fosse minha aliada, entenderia como alguém pode ser feliz ao se propor uma vida prática. Sem o ritual e as surpresas, onde fica a beleza? resta loucura. Mas os loucos são inventivos, há praticidade? Sim, mas também ha liberdade. Ser livre é ser louco? Ser livre é uma questão de prática. Prática de prazeres, os prazeres avulsos e os com hora marcada.
Se por um instante a sanidade fosse minha aliada, entenderia como alguém pode ser feliz ao se propor uma vida prática. Sem o ritual e as surpresas, onde fica a beleza? resta loucura. Mas os loucos são inventivos, há praticidade? Sim, mas também ha liberdade. Ser livre é ser louco? Ser livre é uma questão de prática. Prática de prazeres, os prazeres avulsos e os com hora marcada.
domingo, 28 de outubro de 2012
Da pasta: Sara
Língua afiada é coisa de idiota; língua bonita é língua na
boca, língua inteligente é língua calada.
' Da pasta: besteira
Escrita e solidão, puta e solidão, paixão e escravidão,
poeta e nada; nada é pior que solidão, melhor seria se fosse escrava.
Não sei nada sobre títulos
Palavras contadas, minguadas, fio por fio.
Palavras poucas, palavras vazias,
Nenhuma palavra.
Acabou.
' Horas arrastadas
Bar, isso, numa mesa de bar. Era tarde com horas lentas
daqueles dias arrastados, estava lá, sentado, charmoso, mal educado, velho,
porco. Entre bebidas, cafés, cigarros e livros, solitário. Você quer saber? Foi
o que de mais bonito vi em minha vida.
Se me atrevi a sentar-me à mesa? Sim.
Fui convidada. Se estive nervosa?! Por favor, fale mais alto, ou melhore o tom
da fala, não consigo te entender. Ah, sim, sim. Não estava nervosa, normalmente
fico em paz quando encontro sombra na escuridão, coisa de poeta, de vagabundo,
coisa minha, de gente cega. Pois não, prosseguirei. Fui admirada por ele.
A
admiração – confesso -, não me deixa envaidecida, seu poder é outro, fico
amedrontada, porque que ali, como posso explicar?! Claro, se estabelece uma
espécie de vínculo entre o admirador e o admirado; sempre tenho a impressão de
que preciso corresponder as expectativas, o que não consigo. Viro estátua, não
faço mais nada. Mas olhe, naquele dia nada disso aconteceu.
Fui sabatinada, foi
bonito, estava livre, era um coração como o meu. Ele chorou, isso me emociona,
ele chorou quando falei de algum Kovisky, penso que
também tenha chorado. Depois ele bebeu, me elogiou e disse que de política não
entendia nada. Eu sorri, abandonei o velho negro no canto, fui embora
desimportante.
Um dia lento, desses que as horas passam arrastadas.
' Zenete
Zenete vinha do interior, de um interior qualquer perdido no
tempo e no mapa. Com uma beleza exagerada de cabelos grandes, boca grande,
olhos grandes, cara marcada. Zenete tinha esperança, esperava fazer a vida como
mulher importante, mulher estudada, mulher elegante, mulher admirada. Zenete
era boba, de uma bobice invejada, acreditava nas palavras, não sabia que
palavras ditas são palavras contadas. Mas Zenete era jovem, jovem inteligente,
desistiu de ser mulher importante, foi ser mulher mudada. Mudou o interior que
tinha, encontrou o que havia perdido, fez de sua vida a marcação do tempo.
Pintou os olhos grandes, soltou seus cabelos, pensou coisas importantes, andava
em más companhias, admiração não tinha, era invejada. Zenete sofria, agora sofria
adulta, sozinha e calada.
' Desacelerada
Desacelerada. Estou assim, sem pressa pra nada, sem gosto
nenhum
Insossa, em paz, em pó, atrás.
Atrás de arranque, de ser arrancada, de uma batida, de ser
montada.
Montada. Estou assim, enfeitada por palavras, palavras em
desordem,
Sem preferências, sem paixão, engoda.
Gorda. Estou assim, gordura e baba; sem beleza, hipócrita,
um nada.
Nada, nada é assim, finito, burro, imundo.
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