Páginas

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A paixão é assustadora

Às vezes fico me beliscando, tapeando pra ver se ainda estou aqui, se ainda existo. 
Que coisa louca esse negócio de a outra pessoa ocupar todo o espaço que existe em você, pior ainda é que vai além, vai além de seu próprio corpo; ele fica lá, na cadeira da varanda, no livro de Sociologia, na mesa, no birô, na torneira da cozinha. E, ainda, nos trejeitos alheios, nos rostos estranhos na rua, nas atendentes infelizes do Paraíba. Você se assusta de sobressalto porque, essa loucura de espaços ocupados é o que te deixa feliz, é o que te dá segurança, é a forma mais delicada de ser palhaça, de ser boba.
Como pode?! Só estando louca. Ah, tem dias que dá vontade até de apertar a campainha só pra sentir aquele friozinho na barriga, ouvir barulho, é o barulhinho sinfônico da chegada dele, é o sinal: agora ele ocupa só o meu abraço.

Um tanto de Sara


Você sabe aqueles tempos em que a fantasia é mais lúcida que qualquer outra coisa em você? Que tu andas por aí como se dançasse ciranda? Que olha para dentro dos Correios com dó dos atendentes sentenciados a não sorrir? Sabe essas coisas? Pois é... Estou na fase mágica da maturidade.

Percebe que minha maturidade está a um passo da infância?

Ainda semana passada planejei me comportar como adulta, vestir roupas um tantinho mais longas, ir pra academia retardar a menopausa, economizar dinheiro sujo pra comprar um carrinho, um casebre, planejar meu escritório.

Imaginei o tempo em que cogitaria a idéia de fazer franjinha e chorar por não ter mais vinte anos. Me vi longe, lá no futuro... Numa época em que hoje é a fase feliz.

Lá onde eu me via, não enxerga um tempo largo. Não me vi cantando na sala, nem tinha violino ou violão detrás da porta. Nem as graças do amor devoto.

Minhas plantinhas não estavam no peitoril das janelas...

Eu imaginei tudo isso meio embaralhado. No fim do dia ao relembrar as frescuras, sorri. Devaneios insensatos. 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O Vendedor de livros

Januy vendia o que não podia comprar
comprava o que não podia fazer
escrevia o que podia vender.

sábado, 17 de novembro de 2012

Silêncio


Estive ontem na casa de dona Doura, senhora distinta, dada por muitos como louca – o que não me causa incômodo. De alguma forma senti que deveria conversar com ela para me entender um pouco mais; uma velha, pobre, louca, suja e reclusa numa casa de taipa no meio da caatinga, seria meu melhor analista.

Deixa eu dizer como tudo aconteceu; enquanto  passava férias na minha cidadezinha, visitei vários povoados com o meu pai, em busca de ração para o gado, desfazendo as ordens de Deus e tentando não deixar nossas crias morrerem. Deus olha a morte e sorri.

Ouvia rumores da morte de um velho vaqueiro, que fora assassinado por um vizinho que sabia que no chão, embaixo do tamborete da mesa da cozinha, encostado a parede ao lado do fogão, enterrada estava uma pequena fortuna, da venda do gado de leite; nada mais que cinco mil torrões.

Sempre que alguém narrava a história triste da viúva sofredora que gritava vendo seu marido morto no beiço da porta com as tripas espalhadas pelo terreiro, me causava arrepio, um arrepio de desconfiança, de quem sabe quando uma história tem fim.

Por acaso ou destino, ou só a velha me chamando, ontem de manhã fui parar na palhoça da Doura, melhor dizendo, debaixo do cajueiro, na porta da casa dela, sentada no banco de madeira contando as lagartas que se arrastavam pelo terreiro da velha – lagarta de fogo.

Doura me apareceu na porta, disse que precisava me falar, entrei na sua casa como desafiante de boteco, mal encarada. Ela me disse:
- Mistério é mistério, o diabo deve saber.
Perguntei do que falava, e ela... me ofereceu tripas de bode pra comer.

De Doura, da conversa e de ontem entendi: silêncio.

A realeza de Ester


Sempre ficava confusa pela manhã, era como se algo fosse perdido durante a noite, talvez seja apenas a ressaca de fantasias que a realidade trazia, mas Ester demorava a se recompor. Durante o banho escrevia vários poemas, cantarolava novas canções, pensava até em arranjo pra o violino – o banho se tornava uma extensão dos primeiros sonhos.

 Enquanto preparava seu café, se imaginava morando no campo, conseguia até sentir o cheiro da relva matinal, fazia de conta que a margarina era manteiga fresca e que o café tinha sido colhido no quintal. Esquecida de sua vida campestre, esticava seu notebook na mesa, ao lado, uma torre de livros e começava a estudar; ficava se imaginando uma mente importante, com grandes responsabilidades quanto ao estudo social do crime. 

A terra de Ester era a mesma terra da infância, com o mesmo cheiro de água molhada, com as mesmas mãos criando castelos, com a mesma mente fabulando com pedras, arranjando um destino perdido para alguma flor de feijão ou pé de goiaba. Ester cresceu, deveria ser mais astuta, pelo menos mais racional, Deus lhe deu uma mente brilhante, poderia ser destaque intelectual, mas qual?! Ester é poeta, assim sempre será.

Em qualquer cidade que chegar será saudada pelos súditos que se curvarão na beira da estrada, acenando com uma flor na mão, as crianças nos ombros dos pais, sorrindo e gritando por seu nome.

Todos sabem, todos notam a realeza de Ester.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O que não puder esquecer

Agora que sou velha, não preciso de tanta bagagem, uma mochila rasgada com o caderno de lembranças e o fardo de memória, já me basta.

Ontem, enquanto dormia, escolhi o que deveria guardar:
Um pedaço de seus cílios longos, para o caso de eu precisar chorar;
Suas rugas douradas, o presente precisa sorrir;
Uma gota de seu perfume, vai que eu queira me inspirar;
Uma fotografia antiga, pra não me lembrar de agora;
E depois, só o que não pudesse esquecer.



segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A praticidade como inverso de uma vida prática.

Gostaria de tratar meus textos com a mesma leveza que tiro o relógio do pulso para me esquivar das horas, seria estúpida. A hipocrisia não é leve, me disponho ao peso quando maltrato o tempo. Quando meu pulso fica livre, sou sutil e só.

Se por um instante a sanidade fosse minha aliada, entenderia como alguém pode ser feliz ao se propor uma vida prática. Sem o ritual e as surpresas, onde fica a beleza? resta loucura. Mas os loucos são inventivos, há praticidade? Sim, mas também ha liberdade. Ser livre é ser louco? Ser livre é uma questão de prática. Prática de prazeres, os prazeres avulsos e os com hora marcada.

domingo, 28 de outubro de 2012

Da pasta: Sara


Língua afiada é coisa de idiota; língua bonita é língua na boca, língua inteligente é língua calada.

' Da pasta: besteira


Escrita e solidão, puta e solidão, paixão e escravidão, poeta e nada; nada é pior que solidão, melhor seria se fosse escrava.

Não sei nada sobre títulos


Palavras contadas, minguadas, fio por fio.
Palavras poucas, palavras vazias,
Nenhuma palavra.
Acabou.

' Horas arrastadas


Bar, isso, numa mesa de bar. Era tarde com horas lentas daqueles dias arrastados, estava lá, sentado, charmoso, mal educado, velho, porco. Entre bebidas, cafés, cigarros e livros, solitário. Você quer saber? Foi o que de mais bonito vi em minha vida.

Se me atrevi a sentar-me à mesa? Sim. Fui convidada. Se estive nervosa?! Por favor, fale mais alto, ou melhore o tom da fala, não consigo te entender. Ah, sim, sim. Não estava nervosa, normalmente fico em paz quando encontro sombra na escuridão, coisa de poeta, de vagabundo, coisa minha, de gente cega. Pois não, prosseguirei. Fui admirada por ele. 

A admiração – confesso -, não me deixa envaidecida, seu poder é outro, fico amedrontada, porque que ali, como posso explicar?! Claro, se estabelece uma espécie de vínculo entre o admirador e o admirado; sempre tenho a impressão de que preciso corresponder as expectativas, o que não consigo. Viro estátua, não faço mais nada. Mas olhe, naquele dia nada disso aconteceu. 

Fui sabatinada, foi bonito, estava livre, era um coração como o meu. Ele chorou, isso me emociona, ele chorou quando falei de algum Kovisky, penso que também tenha chorado. Depois ele bebeu, me elogiou e disse que de política não entendia nada. Eu sorri, abandonei o velho negro no canto, fui embora desimportante. 

Um dia lento, desses que as horas passam arrastadas.

' Zenete


Zenete vinha do interior, de um interior qualquer perdido no tempo e no mapa. Com uma beleza exagerada de cabelos grandes, boca grande, olhos grandes, cara marcada. Zenete tinha esperança, esperava fazer a vida como mulher importante, mulher estudada, mulher elegante, mulher admirada. Zenete era boba, de uma bobice invejada, acreditava nas palavras, não sabia que palavras ditas são palavras contadas. Mas Zenete era jovem, jovem inteligente, desistiu de ser mulher importante, foi ser mulher mudada. Mudou o interior que tinha, encontrou o que havia perdido, fez de sua vida a marcação do tempo. Pintou os olhos grandes, soltou seus cabelos, pensou coisas importantes, andava em más companhias, admiração não tinha, era invejada. Zenete sofria, agora sofria adulta, sozinha e calada.

' Desacelerada


Desacelerada. Estou assim, sem pressa pra nada, sem gosto nenhum
Insossa, em paz, em pó, atrás.
Atrás de arranque, de ser arrancada, de uma batida, de ser montada.
Montada. Estou assim, enfeitada por palavras, palavras em desordem,
Sem preferências, sem paixão, engoda.
Gorda. Estou assim, gordura e baba; sem beleza, hipócrita, um nada.
Nada, nada é assim, finito, burro, imundo.

domingo, 9 de setembro de 2012

' O Último entendimento


Estive com ele, mal me lembro; era noite e eu pouco entendia. Importante? Não, eu estava lá, eu estive com ele. Meu enredo é simples, digamos que o meu argumento seja o pouco entendimento. De quê? Qualquer coisa, qualquer situação ou sentimento. O simples entender, ou... O nem querer saber – que seria melhor (ao menos mais honesto). Enfim, repito: eu estive com ele.

Numa noite pouco pura, meio clara, meio escura, decidi que sairia e que por menos e mais modesta, abandonaria meu espírito imundo, sofrido. Me poria em sacrifício, fosse o que fosse. Em detalhes me planejei para este dia: depois de um banho rápido, desprovido de pensamentos, me vestiria. Roupas novas e talvez bonitas – o menos provável seria a beleza – calçaria chinelos leves, usaria cabelos soltos. Canibal, comeria minhas unhas, estaria nervosa, de algum modo eu o encontraria. Pouco perfume e olhos pesados, seguiria até o térreo, abriria o portão, desceria rua abaixo, me depararia com uma praça, sentaria no último banco do lado esquerdo, de frente para o cemitério. Ali esperaria, estaria com ele, sei que me encontraria. Assim fiz, senhor velho. Com licença, depois de uma pequena pausa continuarei minha história. Antes me conte, há em tuas lembranças um olhar mais triste que o meu?

Pronto. Fiz exatamente como havia planejado, sozinha no banco fiquei sentada por algum tempo, 3 horas para ser justa. Era ele, o escritor desconhecido (fisicamente, claro), meu pertence mais íntimo. Durante 17 anos esperei por seu afago, ele foi ao meu encontro. Ah, Senhor Velho, tenho certeza de que nada além de nós dois existiu no mundo naquele momento, naquele singelo tempo, foi ali, bem ali o princípio do entendimento: é só para o amor que o coração existe.

No início eu disse que pouco me lembrava, era mentira. Penso todos os dias no tempo em que fui querida, é... Eu fui.

Você começa a entender Senhor, porque não posso me alegrar? Seus olhos caídos eram uma espécie de liberdade onde eu podia dançar sozinha num espetáculo em que ele me aplaudia, era minha platéia, quando eu cantava, era uma poeta desesperançosa, ele ria, me achava sutil. Vítima do arrebol sedutor: a luz de seus cabelos no brilho da pele. Havia mesmo tanta beleza assim? Ora, este é o segundo entendimento: nossos sentidos foram criados para a extravagância do outro. Havia nele a perfeição.

Hoje, olhe pra mim. Por onde anda a leveza, a poesia, Senhor Velho? Eu me lembro de ti. E tu, do que ainda gosta em mim? É esse peso que hoje te alegra? Ainda sou tua, querido. Me encontre, há tempo. Não peço a tua compreensão.

Por aqui, sem um final desejado, quiçá sem muito fôlego. Termino meu texto. Sem desdizer nada que disse no começo, o argumento seria o de não entender, o que pra mim seria honesto. Este é o último entendimento.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

' Disciplina, pequena!




Disciplina, pequena; é disso que você precisa! Esta é minha ladainha diária, horária, segundo após segundo. “Eu preciso de disciplina, eu preciso de disciplina”, mas qual? Dentre tantos afazeres me disponho a fazer todos, acordar cedo – é... (risos), tomar baninho, café da manhã, colocar meus livros a postos e começar minha dedicada viagem aos labirintos do Direito, por suas vias mais obscuras. Eu começo, eu leio, eu estudo, eu entendo, até aplico e é gostoso. Mas então... olho para o lado, vejo meus livros favoritos, sinto Cecília Meireles me chamando para entender sua crônicas, Esopo para que compreenda a moral das fábulas, Machado de Assis para que não me desanime com a vida, Dostoiévski, o homem que é meu outro lado. Então... Adeus disciplina! Me rendo, vou para uma diversão diferente, vou para o pouco compromisso com a realidade, vou para o que é meu. Me desarmo, aí depois vem a agonia: Tenho estudo de caso para entregar daqui a pouco! Deus, Direito Civil! E agora? E agora? Bem, ainda tenho meia hora, vamos ver, vamos ver... dá tempo, leio e respondo. E o tempo? Deu tempo, mas e o atraso? Há tempo. Eu e o relógio não nos damos, chego atrasada. Entrego o trabalho poucos instantes antes do término da aula. Mas quer saber? Eu cumpri o que me propus muito antes da disciplina, eu prometi a mim mesma: o que me fizer feliz. Aprendo o que deveria, me divirto com o que gosto, e depois... ando lentamente pelas ruas do centro de Caxias ouvindo Zaz e me desenrolando no francês. Se o trabalho sempre for recebido, me contento; dever cumprido.