... E depois, eu nunca me interessei por sapatos. Um jogo de espíritos, uma luta conjuntural, nada mais fazia sentido. Disquei seu número:
-nada, não fala nada por mim, tenho medo, só isso...
-Sophie, eu não falo a ti
-eu sei, eu sei, mas, foi horrível! Cada curva, minhas pernas, minhas marcas, não sei se me quero, cortei meu cabelo, tenho novas roupas, encaro as pessoas...
- É isso Sophie?
-não quero Paulo, minhas cartas, minha pureza, todas as vezes que me encantei com minhas fotografias, meus jarros eram sempre de pó, por Deus, eu sou cristã.
-é cristã, Sophie
- Não, não! Eu andei, andei muito, fui lá nas improváveis, me encontrei forte,leve, nem mulher nem vida, tinha uma moça, Angélica, tomei assim a sua identidade, ela me matou, disse que eu era o pó dos jarros, as fotografias desgrafadas, os desencontros de espírito. Eu entendi Paulo, eu sou aquilo que de nada se quer, a psique de papel, não fala nada por mim...
-Sophie, morei em ti eternamente até o fim, minha alma se casou com a tua, horizontalmente era o amor inclinado, nosso ponto era o máximo. Feliz Sophie? Não, pesados. Cheios de anjos, fadas e querubins, línguas de palmeira, sexo de rosa. E quem somos Sophie?! O pó dos jarros dos querubins, nem grãos de areia são físicos. Nós? Nem química, nem arte, uma descoberta, todos os livros não lidos, as aventuras estruturais.
-quando me olho no espelho eu sinto vergonha, sem respostas; meu egoísmo, minha infância, as fotografias, o tempo que eu sempre quis guardar, eu sofro, o tempo parou, meu rosto é o mesmo, os pés, os pés Paulo! As fotografias.
- Meu bem, eu te reflito, me faço por ti um tempo perdido todos os dias, na infância eu também tinha pés, eu era os pés, eu sou o pé, o sustentador de sonhos, teu cata-vento, eu sei do teu raciocínio, acho até tua loucura louvável, mas olhe: o sono, a vida sublime do não ter forças para vencer, o sono, o peso, a morte, o invencível, o anjo sem cor, ele Sophie ainda é teu. Dorme, teu sono te vence, sonha, teus espíritos perdem, se deixe pesar. Boa noite querida, amanhã talvez.
-tá...
Imagino ser melhor assim, Sophie é infanta quando resiste a aceitação, quem não se faz assim ao descobrir que de certo é seu o espírito que lhe enfrenta todos os dias e o deixa irreconhecível em frente ao espelho, os traços, o passado resguardado que só ele conhece, viu como senhor e não se inferioriza, se humaniza e se deixa ser refletido como é. O espelho que nos encara com horror e nos desmascara com terríveis inverdades desincorporadas, o espelho de Sophie, o espelho humano, a imaterialidade desregrada sem fluxo do ser, do reconhecer, do saber, do dizer e do aceitar. Sophie sofre; humanos também, mesmo sendo pés de Paulo.
Me deixe clarividenciar este espaço. Sophie é mulher, Paulo usa roupas velhas e alinhadas, Sophie ainda morre, Paulo é escritor.
Escrever é falar, Paulo pouco fala, ele canta, suas histórias são canções escritas por ele quando não pensa. Talvez se ele confiasse nos sentimentos, se ele encontrasse o que Sophie procura, talvez se eles se aceitassem talvez a completude fosse possível.
O apelo familiar afastava Sophie de Paulo, via nele ela mesma, mas nela se via seu pai, pai era seu, o seu seria sempre seu pai, seu pai nunca lhe deu, o seu/eu nunca aceitaria amor, Sophie é de Paulo, Paulo não viu Sophie. Todas as manhãs as mesmas coisinhas de mulher, acordava, pensava, chocava sua vida com as fotografias, levantava, planejava, banhava, se dava, comia e pintava uma mulher de alma. Alma é essência em Sophie, ela é pinta quadros, tem cor de cigarro na tela de Paulo, sua tela é de papel, alem de cantar, ele pinta quando escreve, Sophie pensa papel.
Uma mulher e uma alma não são irmãs, uma mulher e uma alma são caixas e sabão, mulher, a prisão, o não, a vida de alguém, as chaves, a cola, o produto, a venda; mulher, frágil? Sim, se a alma não tiver bolhas, o sabão, a mulher, o encontro, os fluentes, o perfume, a essência, o descaso, os frutos, o querer, o translúcido. Mulher, alma, filosofias e tardes. Encantos e reflexões, as horas que se chocam, a vida que luta; o real que borbulha.
II
Do Paulo de pés, nem o cabelo. Três anos, o tempo que não completa, Sophie é corpo, uma longe fivela, os sapatos de Paulo, o retrato na porta, o batom no espelho, a mancha no azulejo.
- Oi, um espanto e três lágrimas escorridas do mesmo olho – o esquerdo.
- Eu entendo, eu até voei até aqui, você... Bem, você veio, eu queria mesmo ser assim; Oi...
- Sophie, cabelos leves, pode entrar, não tenho jarros, varri a casa e seu retrato ainda está na porta.
Cada ano, cada lágrima, nenhuma história, eram seres humanos sem marca, Paulo cuspiu na pia, era louça marrom, mas o que de fato queria era vomitar cada espanto e abraçar a sua mulher, 22 anos, sem sardas, era Sophie, ela era dele, era a mulher em Paulo.
sábado, 14 de janeiro de 2012
sábado, 24 de dezembro de 2011
' Pitaco
‘ da chita eu faço mais quatro mulheres, afetadas, rasas, ralas, talas, feias e burras; ontem li uma mulher de chita. Pano não é cobre e a arte não tem flor (não as mal apertadas)...
Linha nas pernas e sol na testa, uma moça dourada e o resto é conversa!
Linha nas pernas e sol na testa, uma moça dourada e o resto é conversa!
' Vizinhos
As madrugadas que falam alto
Os inquilinos que apontam o salto
Aquele ar na minha frente
Nem me escondo de tanta gente
Os inquilinos que apontam o salto
Aquele ar na minha frente
Nem me escondo de tanta gente
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
' Só
Toda chuva, um trovejai, a chegada de um turvo atordôo, de mulher eu sou a noite, nem do medo eu tenho traste, mais confusa que minha solidão é essa necessidade de todos os “mins” que a água traz...
' Do amor o puro é morte
,só que aquele passado era o que de mais espontâneo havia nele, era tudo que tinha; o vidro que não lhe refletia, mas o fazia fiel, suas dores nem eram casca de ferida... Sua roupa era pura, ele balançava o que de sempre era naquela mesma cadeira de balanço invisível desde o dia em que suas mãos arrancaram a alma dela.
' Pastiche
Um pontinho chamado orgulho, uma agulha chamada talento, um príncipe, uma cobra, um conto (eu invento). Pastiche.
'Aquelas coisas bobas que a manhã me sopra...
Agora é um declame, cada vez que eu canto fico mais branquinha que minha linhas absurdas, se eu canto... só canto, só canto. E talvez a música e minha voz, e os meus talentos dedilhados e muito pouco dedicados, sejam a frustração que me faz escrever para pensar, bem assim, sem nada, que nem Flaubert, velho amigo e amante que estuprou minha carne e torrou aquele velho espírito cantador que eu tinha, eu tinha, lá nos quinze anos... Que nem Flaubert que só é mal porque não sabe cantar.
Pronto, falei.
Pronto, falei.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
' Num dia gente grande
Quando eu crescer e ficar vermelha, minha tia vai me traduzir, vai contar cada beijinho que eu der nas beiras, pelas manhas em que acordar de graça. Quando for grande vou fazer uma casa só de mármore, vou ficar lá, bem quietinha, paradinha... Um dia vou gritar, gritar bem fortão, e sabe, ninguém vai me ouvir, minha tia não vai me traduzir, gente grande fica preso nos gritos, aí eu vou ficar lá, lá na casa de mármore do cemitério da praça, mas não vai ter nadinha, porque gente grande espera, espera bem no fundo de um mausoléu, fico assim até amanhecer, e aí por bem menos que uma eternidade, nascerei novamente bem pequena e com alma nova, o detalhe serão as lembranças, uma mente que nunca foi criança, mas só que dessa vez eu não vou me prender, titia não vai me traduzir, (agora eu sorriu) eu vou ser poeta, Nara.
' Idiotices juvenis
Quase nunca tudo falo, sempre nunca o tudo basta; não pense em mim, o inequívoco é não falar, invente um submerso.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Canção do nego meu
Talvez em cada chuva eu me fizesse deusa
Em todas as Deusas eu fosse tua
Cada vez que eu em ti fosse nosso amor
Te faria meu.
Todas as vezes que fosse meu
Eu te faria nu.
Em todas as vezes que me procurasse, nego
Eu me coubesse em tu.
'Chocolate
Nada mais doce que chocolate
De quatro no ato
Nada mais quente
Que beijo de rato no mato
Nada mais mentiroso
Que meu pensamento medroso
Nada mais perverso
Que minha infantilidade no verso
Nada mais forte
Que um gato subindo no poste
Nada mais cheiroso
que pit-zing gostoso
Nada mais besta
Que eu
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